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24.5.05



Brasília-ília. Ilha? Pilha!

Fomos todos para a frente do alojamento, esperar o 110 passar. O plano era extremamente simples: pegar o ônibus, descer na Praça dos Três Poderes (doravante Praça Superpoderosa, pois eu amo piadas fáceis, e também amo apelidos engraçadinhos), assistir ao show da Daniela Mercury, pegar o ônibus de volta, e fazer farra no alojamento até todo mundo cair de cansaço.

Em algum momento da noite, nós dominaríamos o mundo, mas isso não ficou bem combinado.

Passou o 110. Uma quantidade incerta de malucos embarcou. Antes de nós entrarmos, só tinham três passageiros no ônibus. Depois que entramos, lotou geral. Eu, Artista e o Geek-Nerd-Gente-Fina ficamos em pé.

Eu(Menina-Tereza-de-calcutá-prodígio) - Gente, vamos contar quantos nós somos, pra não nos perdermos!

Moçada alucinada - Brasí-lia, Bra-sí-lia, Brasí-lia!

Artista - Treze, quatorze...Tem vinte e um.

Amigo-Reservado - Mas aquele casal e aquela moça são passageiros do ônibus!

Eu - Dezenove.

Moçada Alucinada - Olerê, Olará...Misturei o carimbó com o siriá!

Eu - Pra que é aquela garrafa PET? O refrigerante vai ficar quente!

Moça de Belém - É só Vodca, mana!

Eu - MIsericórdia, imagina quando eles começarem a beber!

Moçada alucinada - Cobrador é um bom companheiro, cobrador é um bom companheiro...


***


Eu me levantei, entreguei a minha máquina pro cobrador e pedi pra ele tirar uma foto da bagunça. O cobrador (parecia um garotinho de quinze anos) fez uma das coisas mais gentis que um estranho já fez pra mim: saiu da sua cadeira, e ficou trepidando tentando ajustar o foco.

Eu já tava vendo que a foto ia ficar um borrão, quando senti o ônibus desacelerando pra fazer uma curva. Berrei pra ele:

-Bate agora, aproveita!

Senti o ônibus parando. "Será o sinal vermelho?" O cobrador bateu a foto, e o ônibus voltou a andar. Aí eu saquei:

-Moçada, o motora parou pra gente bater a foto!

Veio a salva de palmas mais tocante que eu já vi, logo acompanhada dos gritos de guerra:

MO-TO-RA! MO-TO-RA!
CO-BRA-DÔ-ÔR!! CO-BRA-DÔ-ÔR!!


A viagem correu MUITO rápido, com vááários gritos diferentes em seu percurso:

Pará! Pará! Pará!
Do Sul! Do Sul! Do Sul!
Goiás! Goiás! Goiás!
PET! PET! PET!
Amazonas! Amazonas! Amazonas!

O pessoal aplaudia todo mundo que subia ou descia no ônibus. E ainda avisava:

O ÔNIBUS É NOSSO! HA-HA, HU-HU!

Ri demais dentro daquele ônibus. Cada vez mais eu notava que a minha vida é melhor que novela, como as meninas de Brasília tinham dito.

Chegamos à praça Superpoderosa. Reformulei meus conceitos sobre a palavra LOTADO.

Tinha mais de cem mil pessoas ali. Daniela já estava cantando. Atravessando a rua:

Eu - Pessoal, quantos nós somos?

Vozes - um, dois... vinte e três...Cadê Fulano! Cadê Siclano?

Eu - Cadê a bandeira do Pará?

Artista - Com o Fulano, que sumiu pra lá.

Moça de Belém- Tem seis meninas!

Eu - Já tá bom. Ninguém precisa saber quantos homens são.

Daniela no telão, cheiro de churrasco, eu sem querer gastar um real sequer (tinha pouca grana). Como não bebo, acabei não gastando nem um centavinho. Mas o pessoal comprou MUUUUITA cerveja, misererê!

Tínhamos achado um lugarzinho legal, a meia-distância da caixa de som MACETONA DE CINCO METROS E QUARENTA CM, do ladinho de um vendedor de cerveja, com uma van vendedora de cachorro quente pra servir de ponto de referência, não comprimido pela multidão e com visão de um dos telões que mostravam o show. Não estávamos nem há cinco minutos lá, quando começou.

Sei lá, quando eu percebi, a massa humana veio, veio, veio, correndo pra cima de mim, pra cima de mim, correndo e gritando. Todo mundo ao mesmo tempo. Me deu um gelo na coluna, e recuei uns passos pra trás. Todo mundo tentava entender, quando o Homem-Vodca (muito doido)gritou pra gente:

-CORRE QUE É ARRASTÃO!

Todos dispararam, cada um pra um lado.Virei de costas e corri que nem o Forrest Gump. Dez segundos depois, escutei (muito longe) a voz do Artista: -Menina...Menina! Não é Olimpíada não! Volta, filha! Eu devia estar a uns SESSENTA METROS de distância deles! Voltei rindo.

-Eita, eu saio de Manaus pra ver barbaridade em Brasília...Depois a gente do Norte que é índio!

-Foi uma briga que teve bem na frente do palco.

-Quantos somos? Cadê o pessoal de Mato Grosso?

-DO SUL! DO SUL!DO SUL!DO SUL! DO SUL! DO SUL! [Moça de MS]

-Olha, achamos vocês! A gente tava perdido![estratégia do encontre pelo grito mode on]

Daniela Mercury, lá em cima do palco, tentava acalmar os ânimos, deu uma bronca bonita no pessoal brigão, e foi aí que veio o sinal do céu.

Ela falou:

-Agora, eu chamo aqui ao palco, um dos grandes representantes do Rock Brasiliense! DINHO OURO PRETO! Todos nós deliramos. Estávamos salvos, o show não era só de axé! A vida pode mesmo ser bela...

"Todos os dias quando acordo / não tenho mais o tempo que passou / Mas tenho muito tempo / Temos todo o tempo do mundo..."

Várias vezes nos demos as mãos e pulamos juntos. Eles dois devem ter cantado quarenta minutos só de Legião. Só as mais boas, as mais melhores, as mais super. Nós nos esgoelamos em Índios:

"Quem me dera ao menos uma vez..como a mais bela tribo dos mais belos índios, não ser atacado por ser inocente..."

Nós nos emocionamos em Giz: "Quero que saibas que me lembro... Queria até que pudesses me ver! És parte ainda do que me faz forte. Pra ser honesto sou um pouquinho infeliz." Piada interna: Como estava ao lado do Artista, eu cantei: "Pra ser honesta sou um pouquinho feliz", mas ele nem notou.Mas o meu momento de nirvana (não o de Seattle, o da Índia) foi "Meninos e Meninas".

“Quero me encontrar, mas não sei onde estou! Vem comigo procurar um lugar mais calmo? Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita... Tenho quase certeza que eu não sou daqui!” [ficou muito engraçado, pois TODOS tinham CERTEZA que não eram MESMO dali.]

“Acho que eu gosto de São Paulo, gosto de São João, gosto de São Francisco e São Sebastião!E eu gosto de meninos e meninas” [Quem era mulher hetero cantou Meninos e Meninos; quem era hetero homem cantou Meninas e Meninas; se tinha algum bi cantou direito; se tinha algum homo, eu não consegui escutar porque o som tava muito alto!]

“Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre,vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente! Estou cansado de bater e ninguém abrir...você me deixou sentindo tanto frio!Não sei mais o que dizer. Te fiz comida,velei teu sono, fui teu amigo. Te levei comigo! E me diz: pra mim, o que é que ficou ? Me deixa ver como viver é bom... Não é a vida como está e sim as coisas como são.Você não quis tentar me ajudar! Então a culpa é de quem ? A culpa é de quem ?” [resposta do geek-Nerd-Gente-Fina: Não sei, pergunta pro advogado!]

“Eu canto em português errado. Acho que o imperfeito não participa do passado. Troco as pessoas, troco os pronomes... Preciso de oxigênio, preciso ter amigos. Preciso de dinheiro, preciso de carinho! Acho que te amava, agora acho que te odeio”[Nessa parte eu olhei pra lua cheia no céu e evitei olhar pro Artista]

“São tudo pequenas coisas, e tudo deve passar” [Fizemos uma rodinha punk e começamos a pular. Nessa hora deviam ser vinte e seis pessoas.]

“Acho que gosto de São Paulo, e gosto de São João, gosto de São Francisco e São Sebastião. E eu gosto de meninos e meninas”.

Eu gostei muito de todos os meninos e meninas do mundo naquela noite. Eu abria os braços, cantava olhando pra Lua Cheia, e sentia dentro de mim a Força de que George Lucas falou. Se eu ficasse um pouco mais feliz o meu coração explodia.

Era uma cascata de coisa boa, vontade de abraçar todo mundo, de celebrar aquela amizade espontânea que se formou entre o pessoal todo que vinha de tantos lugares e tinha tantas histórias diferentes. Não, eu não tomei ecstasy. Não tomei nem um gole de água.

Teve também Teatro dos Vampiros, que vinha bem a calhar naquela hora: "Vamos lá, tudo bem, eu só quero me divertir."

A Daniela e o Dinho chamaram a Irmã do Renato Russo (não faço idéia do nome, tentei decorar mas a Lua estava cheia), que é a cara dele porém não canta muito bem, e ela cantou junto com eles. Depois o Dinho foi embora, e a gente tentou puxar um corinho:

TIRA A DANI-E-LA VOLTA O DI-NHÔ

Mas não pegou. A Daniela cantou as músicas dela, e eu me horrorizei ao descobrir que SABIA a maioria! Estudar em colégio Público dá nisso!

"Love as suas tranças de mel, Rá-punzel, Rá-punzeeeeeeeeeel"

"ê, Pérola negra, Pérola Negra, Iê Ayê minha pérola neeeeeeeeeegraaaaaaaa"

Ninguém curtia muito axé, mas pulava assim mesmo. A moça do Pará já devia estar na décima vigésima latinha, e criou um bordão inesquecível: -Vou passar maaaaaaaaal!

Todo mundo tá passando maaaaaaaaal! Vamo passar maaaaaaaal!

"O mundo vai acabar, e ela só quer dançar!". Quem sabia dançar axé, dançou; quem não sabia, usou a coreografia "Roque, um lutador". Junte as mãos à frente do pescoço, com os punhos fechados. Dê soquinhos para a frente. Faça cara de que quer pegar alguém.

A coreografia é invenção minha. Todo mundo sambou quando tocou "Isto aqui o que é": "Isso aqui, ô-ô, é um pouquinho de Brasília-iá" A rodinha de samba prosseguiu com "Aquarela do Brasil":"Oi, esse Brasil lindo de trigueiro, é o meu Brasil Brasileiro, terra de samba e pandeiro!"Todos pulando juntos e fazendo a coreografia de "Roque , um lutador", agora!"

A cor dessa cidade sou eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu / O canto da cidade é meeeeeeeeeeeeeeeeeeu/ O grito, a rua, a fé/ Eu vou andando a pé / Pela cidaaaaaaaade [Só vocês: Boniiiiiitaaaaaaaaa] / O toque do afoxéE a força de onde vem / Ninguém explica[Everybody together: Ela é bonita-á!] / Ô ô ô verdadeiro amôôôôôôôôôôôôôôÔ ô ô você vai onde eu vôôôôôôôôôôôôô / Ô ô ô verdadeiro amor / Ô ô ô você vai onde eu vouNão diga que não me quer / Não diga que não quer mais / Sou o silêncio da noite / O sol da manhã / Mil voltas o mundo tem / Mas tem um ponto final / Sou o primeiro que canta / Sou o carnaval / A cor dessa cidade sou eu / O canto dessa cidade é meu / A cor dessa cidade sou eu / O canto dessa cidade é meu [enquanto eu cantava, pensava que, REALMENTE, a cor e o canto daquela cidade era eu. ]

E a melhor da noite, que fez até o Geek-Nerd-Gente-Fina sacudir o esqueleto: “Corre cosme chegouDoun alabáDamião jaçanãpra levar e deixarAlegria de erê”

“É ver a gente sambar Me look laquêMandei clarear Me alisei pra vermeu forte é beijar Vou cantar maimbe Pra você se acabar Maimbe maimbe dandá Maimbe maimbe dandá Maimbe maimbe dandá Maimbe maimbe dandá Zum,zum,zum zum zum babaZum zum babaZum zum baba”

O show acabou, eu estava bêbada de felicidade, o pessoal tava bêbado de verdade. Fomos andando para pegar o ônibus, e pedimos informação para o MESMO CASAL que estava no nosso ônibus da ida. Passei mal e vi tudo rodando, mas depois melhorou.

Lembrem-se de que eu ainda estava apenas com os salgadinhos do coquetel, e tinha dançado muito. Na parada de ônibus, eu e o Artista nos sentamos no chão, um cheiro horrível de pepsi twist naquela grama, uma lua cheia no céu... E os dois falando merda. Merdas amorosas, sim?

-Eu amo brasília!

-Eu amo você!

-Eu sei!

-Nossa, agora que a gente parou de andar me bateu uma pilôra...

-O que é pilôra?

-Pilôra...depois eu explico, pilôra é passar mal.

-Passar maaaaaaaaaaaaaaaaaaaal!

-Passar maaaaaaaaal...

-Al, al, al, todo mundo passa maal!

-Eu te amo!

-E eu te amo mais ainda.-A gente tá junto, em Brasília!-Nove meses depois de Cuiabá!

-Hoje é o aniversário de Brasília, gente! Todos

- Parabénxx bra voceixx...ahn...dã..

- Quero que chegue logo amanhã. -Amanhã é o nosso dia.

-Todo dia é nosso dia!-voz de bêbada tu vaixxxxxx se dar beeeeeeeeeeeemm!Garotão!

-Nhé, tu também.

-Nhá. cutucão no nariz dele Porque a xxgente táÁáÁ falando qu..tch nem o Paulo Francis bêbado?

-É a convivênxxxcia com esse montch de bêbados!

-Eu não precisoch beber pra ficar bêbada...Tô bêbada de alegria! Eu amo Braaa...aasília!

-Eu amo você!

Lá vinha o 110. Acreditem se quiserem: pegamos o MESMO motorista e o MESMO cobrador!

MO-TO-RA! MO-TO-RA! MO-TO-RA!
CO-BRA-DÔ-ÔR!! CO-BRA-DÔ-ÔR!!




Menina Prodígio se aventurou aqui às 8:44 PM


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Fonte: Anvörg


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