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16.5.05



interlúdio


Quando eu estava no terceiro ano da escola, era uma pessoa muito ativa lá dentro. Acabei tendo algum destaque, pelas notas altas e pelo meu desembaraço.

Tinha trânsito com todas as turmas, desde o pessoalzinho da primeira série, passando pelos jogados da sexta, até chegar aos meus colegas do terceiro ano.

*****

Logicamente, tinha aquele grupo mais chegado a mim - com quem eu me identificava por um motivo qualquer, trocava meia hora de longos papos diários e ouvia experiências. Entre essas pessoas, a maioria era de meninas do terceiro ano mesmo, aquelas que até hoje são as pessoas que eu mais amo no planeta, apesar de não conseguir falar isso pra elas. Mas havia dois ou três pessoas menores, da quinta série, em quem eu via uma espécie de espelho da garotinha complexada, triste, humilhada e inteligente - eu sempre fui inteligente - que eu tinha sido.

Nutria enorme carinho por eles. Abraçava, conversava com eles como se eles fossem da minha idade, às vezes dava conselhos - tipo "ler é legal, a gente se diverte muito" - e ouvia o relato do que tinha acontecido no dia deles.

******

Rolava uma identificação de parte a parte, e eu não descarto a hipótese de ter me tornado meio ídolo. Na época não lembro de ter notado.

********

E mais ou menos no segundo bimestre começaram os bilhetes.

"Que Jesus abençoe essa pessoa tão bela você é muito legal eu quero te ver sempre feliz."

"Menina-prodígio, eu gostei muito daquilo que você disse sobre o clube de xadrez eu não jogo xadrez mas eu queria até saber pra ficar mais tempo perto de você pois eu gosto muito - MUITO MESMO - de você."

Ora, eu tinha um admirador secreto. Que bonitinho. Pela letra e pela sintaxe, desconfiei que fosse alguém com menos de treze anos, mas quem? Naquele colégio enorme onde todo mundo sabia quem eu era, qual era a minha bolsa e minha sala de aula, qualquer um que quisesse podia deixar bilhetinhos dentro do meu livro de português - e ainda saber que minha matéria preferida era português.

Bem, admiradores secretos são SECRETOS, e eu não tinha tempo de perder a cabeça procurando por ele. Achei bonitinho, até contei pro meu namorado na época, e não mudei minha maneira de tratar ninguém.

Nas últimas semanas de aula, estava andando por aí nos corredores do colégio, quase enlouquecendo com formatura, ensaios, providências finais, dois colegas meus que iam ficar reprovados e pediram pra eu conversar com os professores, quando um dos garotos da quinta série com quem eu conversava bastante sobre livros veio falar comigo.

-Menina...
-Oi, gracinha! (me curvei para abraçá-lo) Tirou notas boas? Vai receber prêmio no início do ano que vem?
-Vou sim, a menor nota foi 8,5.
-Parabéns, viu?
-...
-?
-Você é tão educada...
-Que nada, eu sou é uma grossa. Perco a paciência com tudo, minha mãe é quem sabe.
-Olha menina-prodígio (ele usou meu nome completo, o que me deixou alarmada), eu queria te dizer que tô muito feliz por você ter passado na faculdade, mas eu vou sentir saudade de ti e não gosto de ninguém que vai ser do terceiro ano ano que vem.
-Ahn, mas você se acostuma, em todo lugar tem gente legal.
-Eu queria dizer também que quando o seu pai morreu, eu senti sua falta nos quinze dias em que você viajou pra Belém.

Bem, todo o colégio ficou sabendo mesmo. Mas tem algo errado aqui!

-Ah, foi chato, eu também senti falta do colégio...
-No dia em que você foi falar na frente de todo mundo, logo depois que voltou de Belém, eu falei pra minha mãe que você era muito forte e nem tinha chorado.
-...
-E eu sei que eu ainda sou pequeno, mas quando eu estiver no terceiro ano eu vou fazer igual você e conversar com todo mundo, até quem for da quinta série. Porque as pessoas vão gostar de mim...que nem eu gosto de você. Eu queria ter feito que nem o seu namorado no dia do seu aniversário e ter te dado rosas. E se eu pudesse eu queria ser seu namorado...era só isso, Feliz natal e Boas Férias.

********

Nunca na minha vida senti tanta culpa por ter abraçado alguém com carinho.
Faz sentido se sentir culpada por despertar sentimentos dolorosos e não-correspondidos?

********

Abstrações

Se eu não tivesse dado atenção pra ele, teria sido melhor ou pior?
Se ele tivesse me dito antes, prejudicaria nossa amizade?
Se eu tentasse correponder, seria muita loucura?
Se eu intimamente gostasse da atenção que ele me dispensava, eu seria uma pessoa muito desprezível?

e a maior pergunta de todas...

Se eu já soubesse desde o princípio que ele sentia isso tudo, e alimentasse propositalmente esse sentimento por precisar de alguém pra abraçar... seria maldade, amizade, carência ou instinto?

*******

Maldita história cíclica, que pega a gente aos dezessete e aos vinte e faz as mesmas dúvidas voltarem, cada vez mais complicadas.

Chorei no sábado, e meu Artista é o melhor cara do mundo pra ouvir mulheres-que-choram-por-motivos-estranhos.

*********

-Alô?
-AlÔ...oI...*snif*
-Alô? Meu amor, é você...Eu tava pensando em você, sabe? Tava vendo meu telefone e vi que a última vez que você me ligou foi quinta feira, da sua casa. e...
-Oi...
-Amor? O que aconteceu?
-Eu preciso que você diga que me ama.
-Eu te amo...Mas o que é que tá acontecendo?
-Eu não sei...
-Er...
-É muita coisa junta. Eu sinto saudade de você...e...*chuif* é ruiiiiiiiiiiiim...
-Eu sinto a MESMA saudade. (a voz mais suave do mundo) Mas eu encaro pois sei que não tô sozinho nessa...
-Eu me sinto culpada...Pois eu te amo tanto e...Eu queria que fosse mais fácil. *suspiro* Eu me sinto muito culpada...
-(medo) O que aconteceu?
- *explosão de choro* É muito difícil... As duas coisas são muito difíceis: é difícil ficar sem alguém, e é difícil ficar sem você. *segunda explosão de choro* eu me sinto mal por desejar me apaixonar por OUTRA pessoa, que ...more mais perto!
-(medo)E isso aconteceu?
-*exasperada* Não! Porque eu não consigo! Eu não quero outra pessoa! E me sinto muito mal por querer... Ai que estranho, tu entende isso? O que eu sinto não é vontade de te mandar pra longe, o que eu sinto é vontade de viver algo mais simples, que envolva menos dor...
-*respiração longa* Olha...Você não está sozinha.
-Você sente isso *chuif* também?
-Sinto. Pô, Artista, tanta menina legal aqui em Belém... Escolhe uma, sei lá, arranja uma, que seja possível, que esteja perto, que você possa TOCAR.
-(medo) E apareceu alguma?
- Eu não quero uma menina. Eu quero a MINHA menina.
-*terceira explosão de choro* Eu te amo tantooooooooo....buuuuuuuuuuuu...
-Ô, minha querida, eu te amo também...
- às vezes eu não queria te amar. Eu não queria essa dor.
- ...
-Mas eu gosto do seu amor...entenda, eu gosto do seu jeito.
- Isso me deixa tranquilo, minha mãe vive me dizendo isso!
-Hahaha... Ela tem razão!
-Se bem que ela me diz também que eu não paro em casa, não me alimento bem...
- Ela teeeeeeeeem razão! Hahahaha
-Hahahahah
- *soluço* Droga, a gente se dá tão bem! È tanta naturalidade, é tão gostoso como a gente gosta do jeito um do outro... Que eu fico triste ao lembrar que um dia eu quis não sentir isso...
- Não fique culpada...Ninguém quer sofrer, não é mesmo? Você só queria menos sofrimento...
- Eu queria que o interurbano fosse mais barato...
- Pena que você precisa desligar. Vai chegar o dia em que nós vamos poder conversar a noite toda - ao vivo, eu sentindo o seu perfume e cuidando de ti.
- Quer parar de ser tão maravilhoso?

**********

Como eu pude cogitar a hipótese de procurar outra pessoa? Eu quero enganar quem? Só vou sair por aí atirando adagas, mentindo pra mim, pra ele...e pra outra pessoa que não tem nada a ver com isso.

A saga de brasília vai continuar, viu?


Menina Prodígio se aventurou aqui às 6:16 PM


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Este é o blog de alguém que tem vinte e um anos, gosta de ler, gosta de que sua vida seja um livro aberto e gosta de gostar. E falta um ano pra receber um canudo.

Todo dia uma aventura nova. Toda semana uma odisséia. De vez em quando uma atualização


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Fonte: Anvörg


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