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4.6.05



Lições para o resto da vida


*
Não discuta com o seu melhor amigo sobre música. Você pode duvidar da existência do Universo Conhecido.

*
Não diga que roqueiros são todos batedores de cabeça, se o seu melhor amigo for um roqueiro.

*******

Eu estive lá.

Observações: Eu NUNCA havia ouvido sequer um acorde de uma música do White Stripes. Banda estrangeira, famosa, conhecida como alternativa. Todo mundo elogiando, até o Jornal Nacional. Dois irmãos, um homem e uma mulher (qualquer comparação com Sandy e Junior será imediatamente apedrejada). Ele, um virtuose excêntrico que toca mil coisas. Ela...Bem... Ela toca bateria. Era só o que eu sabia.

Eu achei que não ia ver. Eu não paguei 30 reais pra ver o Djavan (que eu amo), ia pagar 150 reais pra ver o show de quem eu não conheço? Nem com nojo, maninha.

*
Mas, quando vi no jornal que ia ter telão de graça na praça (rimou!), me interessei em prestigiar. Tão difícil uma banda grande vir pra cá, né? E todo mundo elogia, né? Vamos conferir,né?

Cheguei na praça, sentei em frente ao telão, e esperei sentada. Foi enchendo de gente, enchendo. Estudante que tinham saído da escola, e estavam de mochila e tudo lá. Gente que veio de preto. Gente que veio de vermelho. Gente que veio de branco. Todo mundo estava assim. Parecia uniforme.

Começou pontualmente (ponto pra eles). Foi informado queJack "casou" em um passeio de barco no Encontro das Águas. Já comecei a criar antipatia. Acho essas coisas tããããão apelativas. Jogada de Marketing, sei lá. Quisesse casar com a menina, tudo bem, casasse, aqui é um lugar lindo pra casar. O Encontro das Águas é mágico, e tal. Agora...anunciar antes do show? Me poupe. Marketing puro. Detesto essas coisas chinfrim - coisa de Sandy e Júnior.

Tá, mas afinal, cada um casa com quem quiser. O Show começou. Os dois entraram, *gritos desesperados do público dentro e fora do teatro*, assumiram seus instrumentos *dentro do teatro, aplausos; fora do teatro, pulos e empurra-empurra* e começaram a tocar.

Ah, e foi aí a minha primeira decepção. Quando me disseram "som alternativo", eu imaginei algo diferente. Sei lá, algo mais Jazz, mais CULTO, mais elaborado.

A mocinha (Meg White, eu pesquisei) esmurrava a bateria displicentemente. Rebolava em cima do banquinho do mesmo jeito que eu rebolo em cima de...er, bem, OUTRA COISA mais interessante que uma bateria. Tinha uma postura horrível, e não estava usando sutiã, fato BEM perceptível. Até aí tudo bem, essas coisas são supérfluas, ora. Se o som deles sacudisse o meu coração, tanto faz a postura da moça.

O Carinha de Chapéu (Jack White, eu pesquisei) começou a tocar guitarra. Bicho, ele toca muito bem. Muito bem mesmo. Mas quando ele abriu a boca e começou a cantar, fudeu. Ou fodeu, sei lá.

Juro por Deus, tive a impressão que o cara tinha jantado um ouriço e deixado ele lá na garganta mesmo. O cara tem uma voz estranhíssima. Tá, o Ney Matogrosso também tem, mas o Ney canta BEM, poxa.

Em suma, as músicas passavam, a moça batia nos pratos e timbales e bumbo da bateria, ele tocava guitarra/xilofone/piano, e...poxa, aquilo era rock, gente. Exatamente o tipo de rock que eu NÃO gosto: gritado.

Ou seja, eu DETESTEI as músicas. Já estava infeliz e com vontade de tomar o ônibus pra ir pra casa, mas aí eu pensei: Não, pô, depois eu vou poder contar que fiquei até o fim do show dos White Stripes em Manaus. Meus netos vão perguntar: Quem, vovó?

De vez em quando, a mocinha (de quem eu criei uma intensa antipatia, por sua mania nojenta de botar a língua de fora e fazer expressões faciais mongolóides enquanto tocava, além do fato de maltratar a bateria), levantava, pegava duas baquetas e batia num tambor algo assim:

(tum, tum)
Women,
Listen to your mother

num seique num sei que lá
blargh blargh to another

(tum, tum, plim no triângulo)

E ela canta MUUUUUUUUITO MAL MEEEEEEEEESMO! Misericórdia! Desafina mais que o demo! E o Jack ainda permitiu que ela fizesse esse numerozinho idiota três vezes, ai meus sais!

Os bons momentos : Jack White é um virtuose. Toca muito bem mesmo. Apesar de eu não gostar do som que ele faz, ele toca muito bem. Eu queria tocar assim quando eu crescer. E eu amo Xilofone. E quando ele tropeçou no fio da própria guitarra e caiu de bunda no palco, eu adorei a cara de envergonhado que ele fez.

Os maus momentos: Certo, eu não gosto de rock gritado. Ele grita. Eu não gosto da banda. Essas coisas acontecem, assim como tem gente que não gosta de Falamansa, eu não gosto de White Stripes.
Outro péssimo momento foi ocasionado pelo adorável grupo de idiotas que estava atrás de mim. Todo aquele comportamento estereotipado Eu-vejo-MTV-e-Acho- o João Gordo - um guru. Observem as pérolas que eu tive que ouvir:

- Lá dentro só tem Maurício! Se eu tivesse lá, quebrava tudo!

(queridinho, graças a Deus que você não entrou, senão quem te quebrava era eu. )

- O pessoal parece(sic) que tá assistindo uma peça de teatro!

(1- Qual o problema? Só porue eles não estão pulando feito o Tigrão *amigo do Ursinho Puff*, empurrando as pessoas ao redor, rodando a camisa no ar e fedendo como você, isso quer dizer que eles estão errados?
2- Você queria que eles pulassem sobre as cadeiras, entendi. Desculpa, de vandalismo eu não entendo muito.)

- GOSTOSA!

(Meu filho, ela é só uma imagem no telão, a verdadeira está lá dentro no palco do Teatro. Ah, crianças...)

-Porra, caraaaaaaaaaaaalho! Puta que pariu! Buceta, merda poooooooooooorra!

(Sem comentários. O show ainda não tinha começado. )

E esses mesmos idiotas não sabiam cantar uma palavra sequer das músicas. E mesmo assim, gritavam alucinadamente, sacudiam a cabeça que nem uns possuídos, brincavam de empurrar quem estivesse perto, fumavam, bebiam e achavam tudo muito legal, "do caralho, véio, do caraaaaaaaaalho!". Odeio idiotas.

Quando eu já estava encomendando a minha alma ao Meu São Tom Jobim, e dizendo que João Gilberto era meu pastor e a paciência não me faltaria, veio a coisa mais bonita da noite. Jack disse :

- Me and my sister will go outside.

Eu pensei: O quê? Ele vai dar o bis aqui fora?Isso sim é do caralho,porra. Q

Todo mundo correndo desesperado pra chegar mais perto, eu fui levada pela correnteza. Fiquei especialmente feliz por poder pisar nas mãos, cadernos e mochilas dos idiotas que estavam atrás de mim, tentando juntar o material escolar do chão. A vingança é um prato que pode ser comido quente, sim... E a sola do meu tênis é grossa.

Achei muito gentil isso deles saírem do teatro e vir encontrar o pessoal que estava lá fora. Apesar de eu ter sido apresentada a eles naquele momento, e não ter gostado, tinha gente lá que gostava deles e cantava. Foi super educado.

Ele tentou cantar, mas nunca ia dar pra ouvi-lo acima de mil pessoas gritando: "Jack, Jack, Jack!". Na reentrada no teatro, além do pessoal ter quase arrancado os cabelos da mocinha (tive pena da cara de medo dela), muita gente que não pagou entrou, muita gente que estava nas galerias desceu, virou bagunça.

**********

Meia Manaus estava lá, dentro ou fora do Teatro. Achei um monte de gente, desaparecidos ou
Perdidos, e notei que estava sozinha na minha opinião "Não fui com a cara deles."

Todo mundo gostou.

***********

Depois que ele gentilmente e educadamente (piada interna, ele vai me odiar, HAHAHA) me deixou em casa, depois de uma conversa que me deixou muito pensativa, botei o CD do Renato, Equilíbrio Distante, e fiquei refletindo.

Todo mundo gosta de umas coisas e desgosta de outras. E se eu gosto de algo, isso implica que eu ache que aquilo é o melhor - ao menos o melhor pra mim.

Eu acho, SIM, que as músicas que eu gosto são melhores que as outras. Acho que as músicas que eu gosto são mais bonitas, mais cheias de significado. Acho que elas tocam no coração das pessoas e incentivam as pessoas a sentir coisas boas. Acho que elas podem fazer um espírito evoluir. Acho que elas são melhores do que as outras.

Acho não, tenho certeza. E isso pra mim é verdade. PRA MIM.

Você ouve o que você quiser. Agora, se vier me chamar de elitista porque eu gosto de Bossa Nova, vou dizer que sou elitista MESMO. Claro que sou elitista. Eu como todo dia três refeições, tenho um trabalho que remunera regularmente, leio pra caramba, faço faculdade, tenho casa própria, água encanada, luz e telefonesssss, não tenho filhos, sou solteira, já viajei de avião este ano e vou viajar de novo, não como a pele da galinha nem a gordura do bife. Falo por favor e obrigada, tenho computador (quebrado, mas tenho), sei usar crases e vírgulas e tirei excelente na redação do ENEM.

Sou elitistíssima, e dá licença que eu vou bem ali ouvir João Bosco e já volto. Pelo menos ele não desafina.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 2:15 PM


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Fonte: Anvörg


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