<BODY>
31.10.05

Invenção chibata

Percepção minha - é difícil encontrar algo que seja exclusividade amazonense, pois o estado é bastante jovem e influenciado por grande diversidade de povos.
O Amazonas tem uma população composta por muitos nordestino-descendentes, filhos, netos e bisnetos dos Seringueiros do início do século ou dos "Soldados da Borracha" da Segunda Guerra Mundial; muitos indígena-descendentes, que têm de herança a cor morena da pele, o formato do rosto e os cabelos lisos. Sem falar nos sudeste-descendentes, filhos de pessoas que subiram do Sudeste pra cá nos anos 70, grande parte por causa da criação da Zona Franca, e mais uma porção de grupos diversos.

E porque estou falando isso? Porque o Amazonas tem uma identidade confusa. É complicado encontrar algo de que se possa dizer "isso é TIPICAMENTE AMAZONENSE".

Eu, por exemplo: sou amazonense. Filha de uma Paraense branca de cabelo liso e preto com um Roraimense moreno de cabelo crespo, com bisavô Português, Bisavó índia macuxi,raízes maternas no Ceará, raízes paternas em algum lugar entre Portugal e Líbano, e com alguma influência africana no meio disso tudo. Sou branca que nem um picolé de coalhada, tenho cabelo preto e cacheado. Muitas pessoas já disseram que tenho jeito de portuguesa ou espanhola, e várias vezes já duvidaram que eu fosse daqui. Ora, eu sou amazonense, mas não sei se poderia ser considerada um fruto da terra.

Assim como é comigo, é com os usos e costumes daqui.
A gente gosta de comer tapioquinha,tomar açaí, que são de origem indígena.Mas também se come tapioquinha e se bebe açaí no Pará, no Acre, em Rondônia e Roraima.
No Amazonas se ouve muito forró. Os músicos são daqui, mas o forró é nordestino - e os forrozeiros amazonenses cantam com sotaque nordestino...
Um dos pratos mais gostosos é Surubim ao molho de camarão. O surubim é um peixe dos rios daqui, mas camarão...é um fruto do mar. E aqui não tem mar.
Quase toda festa de aniversário amazonense conta com vatapá. Os churrasquinhos de rua também vendem pratos compostos por: um espeto de churrasco, arroz, vatapá, maionese de batata com cenoura e farofa. O vatapá é baiano por definição, não é mesmo?

Mas não pensem que o Amazonas não tem nada de seu. Tem sim: há expressões linguísticas que só acontecem no curso do Solimões. O título do post é uma delas - chibata é algo bom, legal, gostoso. Chico Buarque é MUITO chibata, por exemplo. E tem uma discografia maceta, ou seja, muito grande.

Agora, vem o motivo deste post: a criação amazonense chamada X-caboquinho.

Sabe o pão? É, o pão. Mistura de farinha de trigo, água e fermento, assada no forno, crocante e dourado por fora, fofo e branco por dentro, sem gosto específico e com um maravilhoso cheiro...de pão.

Sabe o queijo coalho? Isso, o queijo coalho. Feito a partir da fermentação do leite, acrescido de sal. Branquinho, salgadinho, vendido em qualquer feira.

Sabe a banana? Claro que sabe. A banana, fruta símbolo do Brasil, macia, com uma imensa variedade de tamanhos/cores/nomes, mas sempre com aquele jeitão bananoso. Nunca conheci uma pessoa que afirmasse não gostar de banana. Aqui em Manaus, a banana é frita em grandes tachos e vendida na rua,em carrinhos, como pipoca ou batata frita. Pode ser doce (com calda de açúcar queimado) ou salgada (cortada verticalmente e seca no forno); pode ser frita num ponto mole, ou durinho (como um biscoitão).

Sabe o tucumã? NÃO? Bem...Como explicar? Pra quem conhece, na aparência ele é primo da pupunha. O tucumã é uma frutinha de uma palmeira amazônica(e eu suponho que seja mais comum no Amazonas, pois em Belém não se vê à venda).

Tucumã descascado

É pequeno, do tamanho de uma bola de tênis de mesa (nunca pingue-pongue, nunca). Tem casca fina, não tão fina quanto uma casca de maçã, não tão grossa quanto uma casca de manga.O caroço é grande (80% do volume da fruta), preto e duro, sendo matéria prima para anéis, brincos, e outras coisinhas do estilo. A polpa é oleosa, alaranjada, fibrosa e tem um sabor que fica entre o salgado e o oleoso, sendo na verdade um inexplicável gosto salobro, que não parece com nada que eu conheça - é gosto de tucumã mesmo. Nilson Chaves tem uma música, Flor do Destino, que diz :"Tu me deste um sonho/ eu te trouxe um gosto de tucumã/ Tu me deste um beijo/ e a gente se amou até de manhã/ Veio o sol nascendo/ e nos despertou/ da gente virando terra, mato, galho e flor! " Eu adoro tucumã, apesar de minha mãe reclamar que, quando come tucumã, passa o dia arrotando com gosto da fruta.

Tucumã

Colar feito com caroço de tucumã

O X- caboquinho é a junção dos elementos descritos acima. Junte um pão francês, passe margarina e ponha na chapa. Derreta um retângulo de queijo coalho, ponha dentro do pão. Bote também umas tiras de banana frita, em ponto mole, sem sal nem açúcar. Acrescente uns pedacinhos de tucumã, sem economizar. Feche o pão e achate-o na chapa. Mastigue e agradeça a Tupã.

Nham, nham, nham...

Quando andar por Manaus, não deixe de experimentar esse sabor. Cedinho, acompanhado de um copo de café com leite, em uma banquinha de café que tem de montão pelas calçadas daqui.

Ou faça como um rapazinho paraense, que entrou em contato com essa iguaria às duas da tarde de um domingo nublado, e se tornou fã declarado do X-Caboquinho, assim como eu sou fã alucinada da maniçoba, essa feijoada verde absolutamente paraense. A vida é feita de trocas, não é mesmo?


Menina Prodígio se aventurou aqui às 2:14 PM


----------------------

27.10.05

E, pra não dizer que não falei de mim....

Metade
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste. Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante. Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento. Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço, que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada. Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância. Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito. E que o teu silêncio me fale cada vez mais. Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, canção.
E que minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade...

também.

Oswaldo Montenegro (Mas bem que podia ter sido eu!)


**************

Faltam sete horas pra que o avião mais importante do mundo desembarque em Manaus. Que a viagem seja divertida, que a chuva não apareça, que as estrelas se mostrem completamente, que a barrinha de cereal esteja doce...

e que Manaus vista lá de cima seja "feito um navio no meio do mar."

***************

Tic-tac pra vocês todos...E, novamente, bom fim de semana.

(na segunda, vocês me dizem se ficaram com a musiquinha da Terezinha de Jesus na cabeça.)


Menina Prodígio se aventurou aqui às 3:36 PM


----------------------



A VERDADEIRA HISTÓRIA DE TEREZINHA DE JESUS, aquela gulosa...

"Terezinha de Jesus,
na porrada foi ao chão
acudiram três cavalheiros
todos com o pau na mão!

O primeiro foi no cu,
o segundo na buceta
o terceiro se fodee-eu,
teve de bater punheta!"

********

Bom final de semana pra todos vocês...


Menina Prodígio se aventurou aqui às 2:43 PM


----------------------

25.10.05

♪Eu tenho tanto, pra digitar...♪

E depois de sair do trabalho, chorar no colo de mamãe soluciona efetivamente tudo.

*******

Comer três sonhos de valsa ajuuuuda a passar a TPM, mas dá uma dor de barriga...

*******

E eu resolvi encenar Romeu e Julieta(versão infantil, que eu fiz no meu longínquo Ensino Médio). Fui procurar o texto, e descobri algo aterrador: escondidos nos armários de casa, jaziam o equivalente a oito resmas de papel usado.

Todos meus. Anotações do meu primeiro período na faculdade (Dezessete anos, quão longe estais!), apostilas de matérias que eu posso ou não ter aprendido, panfletos de filmes que eu assisti no Cine-Vídeo do pessoal de Comunicação Social, zilhões de bilhetes de cinema (de 2001 a 2005), lembrancinhas miúdas de coisas que eu NÃO LEMBRO o que eram.

Fiquei tão assustada com o tamanho da bagunça que decidi: ia passar o aniversário de Manaus organizando, classificando, colecionando biblioteconomisticamente , com direito a pastas de elástico, etiquetas e tudo o mais.

Segunda, Manaus amanhece com 336 anos (e um corpinho de 36). Lá vai a Menina-Prodígio, lutar contra A Terrível Pilha de Papéis Assassinos e Macarenantes. (Macarenantes- neologismo by Inagaki) .

Resumo da ópera? 50% dos papéis rasgados, alguns minutos perdidos relendo cartas de amor (quando eu tinha treze anos eu recebia cartas de amor tão lindas quanto os e-mails de amor que publico aqui. Alguém lá em cima providenciou pra que eu só encontrasse meninos fofos no meu caminho.), diários antigos (com coisas inacreditáveis escritas, do tipo "Um lugar de meu refúgio são teus olhos/ olhos brilhantes de sorriso largo/ de vida adorável/de amor amigável"), cartões de embarque das minhas viagens pra Cuiabá, Belém e Brasília, papéis de presente, textos teatrais escritos por mim (e dói ver quão mal-escritos eles foram!), muito textos que eu encenei e nem lembrava mais, meu cadernos da época do cursinho, escritos com caneta com cheiro de morango (o cheiro só sobrou na memória), manifestos contra a Reforma Universitária, crachás das muitas palestras que assisti, fotos (FOTOS FORA DO ÁLBUM, um pesadelo completo), lacinhos coloridos de presente, agendas novas de anos passados, apostilas de Administração de materias totalmente lidas, decoradas e marcadas com marca-texto, apostilas de Administração Financeira intactas, apostilas de Teoria da Administração que eu adorava ler depois de almoçar no Bandejão, trabalhos de todos os cinco períodos que já cursei na faculdade, confirmações de matrícula, o envelope no qual a Alê Félix me enviou o Balde de Gelo (ela escreveu MENINA-PRODÍGIO [mesmo] no envelope, e ainda desenhou uma carinha ), cartas de quando eu tinha oito, nove, dez, onze,doze,treze,quatorze,quinze,dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove e vinte anos, de pessoas que eu não sei onde estão, de um rapaz de São Paulo com quem eu me correspondia (VIA CARTA! CARTA, gente!), de uma amiga muita querida que tomou outro rumo, do Menino-Com-Cara-de-Artista (além de e-mails, ele me mandou cartas, também, tá?), do meu primeiro namorado, que hoje mora em Porto Velho, adesivos de joaninhas, Folders com a programação de Secretaria de Cultura. Textos usados na evangelização do Centro Espírita em 1997. Poemas de ferreira Gullar copiados com a minha letra de criança, que continuam me impressionando do mesmo jeito. Letras de músicas, muitas, algumas copiadas, outras impressas. Cifras do Djavan. Cadernos em branco. Cadernos semi-novos. Cartões de Natal. Um atestado de doação de sangue.

Muita coisa rasgada e jogada no lixo. Muita coisa devidamente arquivada. Pastas etiquetadas, colocadas no armário em ordem de tamanho. Cartas guardadas com muito carinho, em ordem de remetente.

E aí que eu percebi: a história da gente é contada pelas coisas que a gente não tem coragem de jogar fora.

*******************

Terminei às quatro da tarde, e convidei Mamãe-Prodígio para ir ao cinema. Assistimos "O Coronel e o Lobisomem". Bom filme, Selton Mello cada vez mais talentoso, Diogo Villella mantendo uma interpretação firme em cada segundo, Ana Paula Arósio sendo linda (Meu Deus, como ela é linda. Tem um momento de close no rosto dela que me deu vontade de sair correndo antes de ser sugada por aqueles olhos), e uma participação carinhosa e marcante de Francisco Milani (Pedra Noventa, só enfrenta quem tiver Tolerância Zero...).

Pra quem for: Muita atenção no Galo Vermelhinho. Ele é uma graça.

Só notei uma coisa: o linguajar do filme é difícil, cheio de expressões inventadas como "homem desgracentoso" "paletó embonecrado" e " De repentinosamente ". As construções também são pouco usuais, com períodos longos e cheios de subordinadas. Não vai fazer tanto sucesso quanto "Lisbela e o Prisioneiro", o que é uma pena, pois "Lisbela" é um filme com acabamento bastante inferior e interpretações muito fracas.

Em suma: "O Coronel e o Lobisomem " não é uma obra-prima, mas é uma boa realização. O final me deixou com um gostinho de "podia ser melhor", porém, como não li a obra que inspirou o roteiro, não sei dizer se fez justiça ao texto.

Nota: Se vocês tiverem uma mãe como a minha, fiquem atentos para sacudi-la sempre que ela começar a dormir.

**********

Recebi este e-mail no domingo de manhã:

Esse e-mail vai ser um pouco curto, só porque eu sei que tenho que te dizer, que preciso te dizer algumas coisas, que gostaria muito que você lesse assim que chegasse no trabalho.
Bom, a primeira é:

Vou para aí nessa quinta feira, 27 de outubro, às 22:30, hora Manaus.

Todas as outras posso te dizer pessoalmente, logo, logo.
Mas te adianto alguma coisa, como por exemplo que eu te amo, que preciso muito de você, sua alegria, sua companhia, seu amor.
Que morro de saudades, e as coisas daqui sempre parecem que seriam bem melhores com você por perto.
Vou poder experimentar novamente a sua proximidade daqui a 3 dias. E durante uma semana. Uma pena que seja apenas uma semana, mas vamos ver como as coisas evoluem, com o tempo podemos nem precisar ver datas de separação....
Mas enfim. Te amo minha linda, e ainda te vejo nessa semana que começa hoje.
Beijos meu amor,

Artista

PS.: Sei que passou pela sua cabeça. Sim, meus pais estão bem, (...). Eles me deram um apoio que chegou a me emocionar. (...) as coisas se tranquilizaram bastante por aqui. Até logo...


A felicidade tem data e hora marcadas pra começar. Mas eu acho que não faz mal eu ir ficando feliz desde agora, não é mesmo?

A todos os que se preocuparam comigo, muito obrigada. Especialmente Mamy Cláudia, meu colo virtual, uma pessoa que tem tanto jeito com pessoas descontroladas que até nas letras digitadas pelos dedos dela eu consigo sentir calor humano e carinho. A gente pensa que esse negócio de Internet é frio, e de vez em quando vem uma surpresa boa dessas, todo mundo dando F5 pra ver se o seu piti já melhorou.

**********

Eu deveria dividir esse post em quatro, ou vocês acham que ficou bom assim?


Menina Prodígio se aventurou aqui às 11:59 AM


----------------------

21.10.05

Pendurada

Sexta-feira, meu dia preferido da semana.
Eu devia estar feliz, né?

Segunda-feira que vem é feriado, aniversário da minha cidade.
Eu devia estar feliz, né?

Sexta-feira que vem também é feriado.
Eu devia estar feliz,né?

Tenho uma boa possibilidade de aproveitar o feriadão com meus amigos e colegas.
Eu devia estar feliz, né?

Tenho dinheiro no banco.
A greve da Universidade vai acabar.
Tenho um livro legal pra ler.
Tenho um planejamento de um super-evento a redigir.
Tenho um baby-chá pra ir, daqui a duas horas e meia.

Eu devia estar feliz....

Mas enquanto não chegar o e-mail eu não vou conseguir deixar de me sentir melancólica.
Cruzem os dedos. Façam uma corrente positiva. Rezem pra que só aconteça o melhor. Hoje é um dos dias mais esquisitos da minha vida, e eu estou precisando muito ter certeza de um negócio.

Droga de caixa de entrada que não reage.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:25 PM


----------------------

20.10.05

Dúvida

De mãe é materno.
De pai é paterno.
De irmão é fraterno.
Qual o adjetivo de amigo mesmo, que me deu um branco absurdo?


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:48 PM


----------------------

18.10.05

Psiu, psiu!

Já há algum tempo eu penso em escrever sobre isso - até já tinha prometido pra ele .

É garantido pelas leis o direito de ir e vir. Dentro de certas regras, é claro - não é permitido passear dentro da casa dos outros sem ser convidado, atravessar fora da faixa, ir ao exterior sem passaporte. Mas, em condições normais de temperatura e pressão (ah, longínquo Ensino Médio) ninguém tem o direito de importunar enquanto você vai ou vem.

Então, por favor, me respondam: porque os homens acham que as mulheres gostam de ouvir baboseiras quando andam pela rua?

"Oi, linda","Amor, você tá linda","Ai, delícia","Nossssssa", o detestável e horrível "Vem cá, princesa" e o pior de todos os piores: "Eu não sabia que boneca vinha fora da caixa". Sem falar no inoportuno e lascivo "Oooooooooi".

Eca, eca, eca. Me deu até gastura de escrever essas coisas e lembrar.

Por quê? Porque uma mulher não pode andar pela rua em silêncio? Ou, por cordialidade, ouvindo "Bom dia, moça"? Porque uma mulher tem de ser vista como ALGO que passa? Porque essa coisificação?

Quem deu a eles o direito de perturbar o meu silêncio? Eu é que não fui. E não gosto disso. Percebo nisso apenas um resquício machista e um desejo de dominar mesmo.

Dominar? Sim. Ao menos comigo, esses episódios só acontecem quando estou vestida normalmente, pra estudar ou trabalhar. Nas vezes em que saio na rua com maquiagem de teatro (sombra azul com batom vermelho, muito rímel e purpurina no cabelo, ocasionalmente uma estrela desenhada na bochecha), nenhum homem mexe comigo. Ficam observando meio de canto (e é justo que observem, pois é chamativo mesmo), mas nenhum joga piadinhas. Sabe por quê? Por que esses homens não encaram uma mulher segura de si, exuberante, com consciência de que está chamando a atenção. Eles só jogam cantadas pra mulheres aparentemente desprotegidas, "comuns", estudantes ou trabalhadoras apressadas, que vivem de olhos baixos pra não ter que encarar a expressão gulosa do panaca.

Nenhum está interessado na pessoa - só enxergam a mulher, peito-cintura-bunda-coxas-vulva. Que nem precisa ser mulher, pode ser uma menina de dez anos. E não precisa ser bonita, pode até ser parecida comigo.

O que um cara espera quando faz esse tipo de gracinha com uma mulher desconhecida? Que ela fique hipnotizada e arranque a roupa? Que faça feito a Dama do Lotação e, possuída por uma onda de instinto primata, foda furiosamente com ele? Que se apaixone perdidamente e fuja de casa pra morar com ele? Que seja mais feliz por ter ouvido uma cantada? Que se sinta elogiada?

Não: só visa causar pejo. Ele (inconscientemente?) quer que ela baixe os olhos e fique sem saber o que fazer, para poder comprovar que tem poder sobre ela. Ele pode importuná-la e ela não pode reagir.

Quão desprezível é alguém que se compraz em perturbar o trajeto de outro?

*******

Já passei um momento de pânico. Quem já andou perto da minha casa sabe que meu bairro é cheio de ruas estreitas, tortuosas e inclinadas. É um bairro que tem tanto casas quanto estabelecimentos comerciais: mercadinhos, farmacinhas, lanches (um termo amazonense para Lanchonete), lojas de roupas e...açougues.

Estudo inglês aos sábados, e depois de descer do ônibus, ainda tenho de andar um bom pedaço a pé. Acho que são uns vinte minutos andando, sendo que sete minutos são gastos na travessia de uma rua comprida, estreita, deserta e muito mal-frequentada. Subindo ladeira, pra completar.

Lá vou eu, sol de meio-dia, calça jeans e blusa de manga três-quartos, chinela havaiana verde. Passa uma Kombi carregada de peixe. No banco dianteiro, o motorista e mais três caras.

Começa:

-Nossa, que coisa mais linda! Não quer uma carona, amor? Tá sol...
-Só de te ver o calor aumentou...Vem sentar no meu colo...

Blá blá blá. Eu, fingindo não notar, esperando que a Kombi fosse embora. Ela continuou, me ultrapassou, o cara que estava na janela do passageiro botou meio corpo pra fora e ficou gritando qualquer coisa na minha direção. Teria ficado tudo bem, se a Kombi não tivesse parado.

Eu continuei andando, e a maldita da Kombi me esperou passar. Ficou andando emparelhada comigo, e o cara esticando o braço pra passar a mão em mim, ou puxar meu braço, sei lá.

Do meu lado direito, um muro alto e uma calçada de dois palmos de largura. Do meu lado esquerdo, os quatro cavaleiros do Akombicalipse. Presa. Só dava pra andar pra frente.

Não ia adiantar correr. Eu apressei o passo, e fingia não perceber que o cara estava puxando meu braço esquerdo e passando a mão no meu cabelo. Olhava fixamente para o chão e rezava pra que a rua acabasse logo, que eles fossem em frente e eu pudesse dobrar a esquina.

Foram dois ou três minutos de pavor. Não tinha ninguém por perto, e se eu gritasse, só quem ia ouvir eram os tijolos do muro da escola (sábado, meio dia? Nem o vigia devia estar lá). Eu andando, o cara pegando no meu cabelo, os outros gargalhando, o cheiro de peixe, a rua que não acabava nunca. O medo de que eles resolvessem descer da kombi e fazer uma maldade comigo.

Sentia o meu rosto pegando fogo por causa da humilhação, da vergonha, do medo, do desrespeito. Lembrei de uma coisa que a minha mãe sempre diz: "Quando tu te sentires ameaçada por alguém, reza pro anjo da guarda da pessoa. Ele precisa de ajuda pra não deixar a pessoa cometer o mal." Rezei desesperadamente, gritando mentalmente pra que aquilo acabasse. Olhava e via meus pés, um na frente do outro, depressa, depressa, depressa.

De repente, a rua acabou. A Kombi acelerou e desceu a ladeira, o cara ainda com meio corpo fora da janela, me jogando beijos e acenando.

A reação do nervosismo veio, e eu comecei a correr. Dobrei a esquina, desci a ladeira escorregando na areia de uma construção, corri dois quarteirões sem parar. Quando faltavam três ruas pra chegar em casa, parei e senti o sangue subindo no rosto. Os joelhos tremendo sem parar.

Sentei na calçada e chorei de raiva e nervoso.

********

E não são só os peões de obra não. De todas as idades (até os menores, de nove ou dez, e os mais velhos, de sessenta ou mais), de todas as classes sociais, de todas as cores. A pé, de bicicleta ou de carro (sendo que, nesse caso, a cantada é acrescida de duas buzinadinhas e uma piscada de farol). Bombeiros, Policiais, Médicos, Peixeiros, Desocupados-que-ficam-sentados-no-meio-fio, Bêbados. A única classe que nunca me importunou foram os Frentistas. Palmas para eles.

E sempre com desconhecidas. Em um lugar onde há uma chance de ver a moça novamente, os panacas se controlam (Universidade, Escola, curso de saxofone, Eventos).

Rapazes que lêem esse blog: vocês fazem isso? Por quê?
Moças que lêem esse blog: vocês passam por isso? O que pensam?

Todos que lêem esse blog: Ainda há chance de conseguir um mundo com mais respeito, gentileza e cortesia?

*******

Pronto, postei . Em breve, um post sobre gente que cospe na rua.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:28 PM


----------------------

14.10.05

Tem como eu saber se estou apaixonada?

Seus amigos comentaram que nos últimos dias você fala insistentemente do mesmo assunto, e esse assunto é uma pessoa, e o nome dessa pessoa está presente em todas as suas conversas.

E debaixo do chuveiro, você lembra de uma piada legal, e dá risada, e pensa em contar pra alguém. Aí você lembra que ESSE alguém foi o mesmo que te contou a piada.

Andando pela rua, você nem estava pensando nele, mas não é que aquele carinha de mochila atravessando a rua é a cara dele? Aliás, todos os carinhas estão ficando parecidos com ele, e quando você vê o Rodrigo Santoro de oclinhos no filme você se pergunta como não tinha notado antes que os dois eram tão parecidos? Aliás, pode ser o Mr. Santoro ou o Johnny Depp, pode ser até mesmo o camelô da esquina, todos os rapazes estão ficando muito parecidos com ele.

Nos momentos em que você não tem nada pra fazer, nenhum problema imediato a resolver, e dá pra deixar os pensamentos deslizarem sozinhos, você pensa em quanto falta pra tirar férias do trabalho, nas leituras que você ainda vai fazer, se seria legal usar um vestido de seda azul com um laço de cetim preto, e pensa se ia ser legal tirar uma xerox daquele artigo de revista pra mostrar pra ele, afinal, ele sempre gostou de tecnologia...E pronto, você abraça as almofadas do sofá e crava os olhos no teto, e imagina como ele vai ficar feliz com o artigo, e visualiza a felicidade dele ao receber as folhas de papel. Imagina repetidas vezes, até decorar o sorriso feliz e a exclamação entusiasta, e até acredita que, se imaginar dezenas de vezes, o pensamento vai ter força de prece e vai se realizar.

Você respira fundo e suspira, e junto com a expiração vem sempre o mesmo nome, grudado como siamês, e você sente até vergonha por ter suspirado o nome dele tão alto, e vergonha por que você sempre foi uma mulher independente, não tinha nada que suspirar nome de homem nenhum.

Você senta no banco do ônibus e assume a postura do caracol, olhando fixamente para o próprio decote, e fica brincando com a correntinha no pescoço. Aí, você fecha a mão em volta do pingente, encosta no peito e consegue escutar, lá dentro, embaixo da caixa torácica e dos músculos e das veias e da derme, que o seu coração está derretendo devagarinho, feito a manteiga que a gente passa no pão quente. O seu coração derrete, derrete, quase dói mas no fundo você gosta, pois está derretendo macio e doce, e nesse derreter tem um pouco do nome dele também. Você suspira, e de novo o nome dele sai de dentro de você junto com seu ar e sua voz, e você olha pela janela do ônibus e se pergunta por onde será que ele está andando, se comeu alguma coisa nutritiva hoje e se também suspira por sua causa.

Você procura o nome dele no google. E olha resultado por resultado, até a última página.

Você usa a razão, e sabe que é necessário manter limites, pois senão ele pode pensar que você é uma mulherzinha fácil. Você usa a razão, e sabe que ainda falta um ano de faculdade, sabe que seu apartamento está quitado, sabe que tem muitos amigos que gostam mesmo de você. Mas por outro lado, até que não seria tão absurdo fazer uma mudança para outro lugar, transferir a faculdade, comprar outro apartamento e fazer novos amigos....Você usa a razão e percebe que esse foi o pensamento mais absurdo que você já teve a ousadia de formular, e dá uma baita tristeza por você ser tão racional, e você sente medo de seus próprios pensamentos, e você aperta a mão no peito de novo e seu coração derrete mais uma vez, pois nesse instante você percebeu que não tinha mais jeito e você tinha se apaixonado mesmo.

A certeza cai do céu como um raio, bem em cima da sua cabeça. Você está apaixonada, e o que resta é a vontade de sair correndo e dançando e cantando, o coração batendo e batendo, o sorriso de canto de boca, dentro de você uma luz imensa surgindo e vazando pelos olhos, pois não há nada que seja mais simples e mais inexplicável do que se saber capaz de tanta coisa bonita e louca.

Você sabe que a lua crescente sempre vai fazer os seus olhos pingarem água salgada.
Você sabe que vai viver uma felicidade insuportável quando ele estiver perto, e uma saudade desgraçada quando ele estiver longe.
Você sabe que mês que vem pode não sobrar nada disso .
Você sabe que nunca vai conseguir saber se o outro sente mais, menos ou tanto quanto você.

Mas tanto faz. Você só pode viver isso se for agora - e você quer tudo,você quer mais. Você quer agora e para sempre, amém.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 1:07 PM


----------------------

13.10.05

I memorize every line, and I kiss the name that you sign

(...)

Tenho saudades do seu corpo. Tenho saudades de você, eu, (...)

Trezentos quilômetros acima do chão, horas de prazer.... (feche os olhos como eu fiz agora.....será que você vê a mesma coisa que eu?) (será que você sente a mesma coisa que eu?)
(...)
[Dor muscular é] Consequência direta de felicidade? Então precisaremos comprar uma cadeira de rodas para você.

(...)

Ah, se morássemos perto.....
Mas quem sabe não é para ser assim por enquanto?
Ouça bem: por enquanto!
Quem sabe?
Também tenho medo do que pode acontecer (e do que pode não acontecer) por escolhermos um caminho ou outro. Mas não é assim com tudo na vida?
Não é assim com tudo e todos?
Não é assim sempre?
Não é assim em todo lugar?
Como te disse, todo mundo quer ser feliz, e eu também!
Me sinto tão feliz do teu lado....

(....)

Estou me declarando de novo! Que coisa!

Espero que esteja tudo bem aí.
Com amor,
Artista

PS.: desculpe pelo e-mail confuso.

**********
Ando, faço coisas, assino papéis.
Decido o que vou comer, faço um gracejo com uma colega.
Por um instante eu deixo tudo de lado e olho para o céu azul. E em cada palmo do céu, eu vejo a beleza de seu rosto, concentrado em alguma leitura. Em cada cristal de nuvem, está o seu sorriso aberto e amigo.Retorno aos meus afazeres com um meio sorriso no coração. De alguma maneira misteriosa, sei que você pensa em mim ao mesmo tempo.
Sento ao computador. Uma nova mensagem na caixa de entrada.(...) Começo a ler descontraída. As linhas vão se sucedendo, e eu fico embriagada pela beleza das palavras, e pela força dos sentimentos que elas expressam.
(...)O coração pulsa forte, sinto calor no rosto. Termino de ler...
(...)Imprimo. Três folhas. (...) Novamente do começo até o fim, e de novo para o começo.
(...)abraço a carta eletrônica. Feliz. Recordo do quanto te amo.
(...) Beijo a carta, dobro em quatro partes, enfio no bolso e volto a trabalhar com todo o azul do céu no coração.
Não tenha medo. Amar não pode ser considerado errado nem inadequado. Louco é todo aquele que faz algo em que ninguém pensou. Seja louco, sabendo que tem uma menina tão louca quanto você na outra ponta desse rio.
Venha pra perto de mim, assim que puder, até quando puder. Me dê a sua mão, e vamos passear os dois de cadeira de rodas pela praça, espantando os pombos amazonenses. Sim, os dois de cadeira de rodas, ou você pensa que escapa dessa? O maior problema vai ser na hora de subir a ladeira.
(...)
Beijos de dimensão amazônica,
Menina
P.S.: Desculpa, mas eu não vou conseguir responder à altura. *cara malandra* Posso retribuir pessoalmente?
P.P.S.: Publiquei no blog...


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:32 PM


----------------------

12.10.05

Maiores amigos

Você passa o dia todo fora de casa, só vai lá pra dormir, tomar banho e trocar de roupa. O sofá é no tamanho perfeito pra esticar as pernas, a cama é dividida por você e sua mãe, a cozinha tem uma mesinha na qual as duas jantam durante a semana e almoçam aos sábados e domingos.

Pra você, sua casa é perfeita.

Aí, você precisa receber uma visita do seu amigo de um metro e oitenta , e observá-lo andando recurvado, e esbarrando nas paredes, e alcançando a prateleira mais alta ao esticar o braço, e procurando desesperadamente um lugar pra esconder as pernas, pra perceber que você mora num ovo de formiga apartamento muito pequeno.

E perceber também que não dá pra receber os amigos em casa...Sem antes jogar os móveis fora.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 1:25 PM


----------------------

11.10.05

Dia 23 de outubro

Eu já falei aqui que esse referendo é um desperdício de uma boa idéia em algo inútil.

Pra quê, Zeus, pra quê eles querem saber o que o povo pensa sobre isso? Se ganhar o Não, a violência fica do jeito que tá; Se ganhar o Sim, a violência TAMBÉM fica do jeito que tá.

Apesar de eu ter coisas mais importantes em que pensar, ou sobre o que escrever, vamos lá:

- A campanha do desarmamento já está a todo vapor, milhares de armas foram entregues, milhões de reais foram pagos em indenizações. Depois de toda essa mobilização, eles decidem perguntar: você concorda com o que já está sendo posto em prática? E se a pessoa for contra, recebe a arma de volta e devolve o dinheiro? E se a arma já foi esmagada pelo rolo compressor?Eu, quando encontrei lá em casa um revólver do meu pai, que tinha sido do meu avô, levei correndo pra Polícia Federal e ganhei cem reais (Chibata! Duas mensalidades do inglês!). O dito estava tão enferrujado que, quando saiu do coldre, expeliu um pó vermelho que formou uma mini-nebulosa. Qual a utilidade de um revólver duro de ferrugem em uma casa ocupada por duas mulheres que NÃO SABEM ATIRAR? Cem reais são bem mais úteis... :D E, em caso de ladrão, nós dispomos do CACETÃO DO ÍNDIO (Alguém tem que bater uma foto dele, ele merece figurar nestas páginas...)! o cacetão do índio sumiu lá de casa... Mas ainda tem o espeto de churrasco Hatori Hanzo, vai encarar?

- Quantos porcento da população têm/estão interessados em ter/ cogitaram ter armas de fogo? É uma fração representativa? Gente que tem revólveres iguais ao meu merece entrar nessa estatística? Já dizia Dona Milú, mistéééééério....

- A frente parlamentar que defende o NÃO acredita mesmo nisso, ou está apenas batendo o pé?

- A frente parlamentar que defende o SIM vai desarmar seus seguranças ?

- Porque nenhum parlamentar mostra a cara, e resolveram contratar atores (famosos ou não) para defender as opiniões na propaganda?

- Porque os atores (famosos ou não) da propaganda do referendo interpretam tão mal? Quando eu vejo aquele rapaz de boné na cabeça, dizendo: "O governo está querendo dizer o que eu devo fazer", fico pensando no quanto ele recebeu pra dizer esse texto. (Ou alguém acredita que ele está lá porque concorda? Eu acho que as únicas pessoas que estão lá por vontade própria são os parentes de vítimas da violência.)

- Porque quando eu vejo a propaganda do SIM me dá vontade de votar SIM, e quando vejo a do NÃO me dá vontade de votar NÃO? Ah, tá, é por que eu não tenho opinião formada sobre o assunto.

- Porque eu tenho que ter opinião formada pra um assunto pro qual eu não dou a MÍNIMA?

- Porque a Urna não tem um teclado no qual eu possa escrever o que eu acho melhor pra coibir a violência?

- Porque o mensalão sumiu dos jornais, e dos blogs?

- Onde anda Roberto Jefferson? E o resto?

E A PRINCIPAL PERGUNTA DESTE POST:

- Por que os representantes do povo votam o aumento do seu próprio salário, e o povo nem fica sabendo quanto eles ganham?

SUGESTÃO PARA O TRE:

Ao lado de cada urna, deviam colocar um daqueles bonequinhos Guru do Gugu. Você apertava a barriga dele, e baseado no que ele dissesse, votava sim ou não. E se ele dissesse talvez, você votava 3... A votação é tão fora de propósito que ninguém devia ir votar, deixava só o bonequinho lá...
(Ei, se alguém achar uma foto do Guru do Gugu, pode mandar pro e-mail do meu consultor ? Eu queria botar uma aqui...)

************************

Meu dia 23 de outubro:

-Missa em honra dos três anos de falecimento do meu pai (Três anos? Poderiam ser trinta, ou trezentos...Faz muito tempo que ele parou de tocar trompete.)
-Sessão eleitoral da mamãe
-Minha sessão (quente, apertada, lotada, suja, brrrrr)
-Casa
-Almoço
-Caminha macia
-Maquiagem
-Figurino
-Peça
-Tirar maquiagem
-Tirar figurino
-Interurbano nosso de cada dia
-Caminha macia

**************

Ou, quem sabe, não acontece desse jeito? Quem pode afirmar o que vai viver amanhã?

**************

Vamos lá: na caixa de comentários, ao invés de dizer se você vota SIM, NÃO ou TALVEZ, que tal dar uma sugestão de perguntas que REALMENTE precisam ser feitas?

Eu começo:

* O auxílio-paletó dos políticos deveria ser trocado por um auxílio-livro pra um favelado? (Imaginem, quantos livros não se podem comprar com o dinheiro que custa um paletó!)

* Os carros oficiais(normalmente Vectras ou Tempras) deveriam ser trocados por bicicletas oficiais? (Ia ser lindo ver os ministros andando de bicicleta, além do quê, é saudável e ecológico. )

* Os policiais militares que ficam escorados na parede "cuidando da segurança" de Tribunais deveriam ir prender bandido na rua?

Você continua. Qualquer opinião mal-educada xingando a dona deste blog será impiedosamente deletada.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 11:50 AM


----------------------

10.10.05

Diz que vai, não vem...Diz que não vai e acaba indo!

Era uma vez um marceneiro que dava nomes curiosos às suas ferramentas. O martelo era bate-bate, a lima era rasp-rasp, o prego era fura-fura e o serrote era vaivém.

Só que o pobre marceneiro tinha um problema: seus vizinhos e amigos viviam pedindo seus instrumentos emprestados, e não devolviam mais. Dessa forma, o homem ficava impossibilitado de trabalhar, pelo menos até comprar outro instrumento.

Ele ficou MUITO ZANGADO com isso - QUE ABSURDO, QUE FALTA DE RESPEITO PELO MEU TRABALHO! - e resolveu não emprestar mais nada a ninguém.

Nisso, um garotinho filho do vizinho entrou na oficina e pediu emprestado o serrote. Fulo da vida, o marceneiro respondeu:

- Se vaivém fosse e voltasse, vaivém até ia. Mas como vaivém vai e não vem mais, vaivém não vai!


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:19 PM


----------------------

7.10.05

Você é música, é o meu coração, você é música, a minha cançããããããão

1. Esclarecimento inicial

Desde pequena, gosto muito de música. "Gosto muito" talvez não seja o mais adequado. Sou meio obsessiva-compulsiva, aquela pessoa chata que repete a mesma faixa do CD 48.653 vezes por dia, cantando um segundo antes da gravação pelo prazer de adiantar-se ao cantor, decorando as notas dos solos de sax, piano e guitarra. Esta sou eu, muito prazer.

2.Genótipo

É bem possível que minha fascinação pela música tenha começado antes dos três anos. Quem lê esse blog sabe que meu pai era músico amador, aficcionado por jazz, blues e coisas ricas em melodia. Ele tinha um aparelho de som muito bom (para a época), adquirido na saudosa Zona Franca de Manaus, que possibilitava gravar sons ambientes em fita k-7, por meio de um microfone prateado. Pois bem, ele gravava na fita o som dele tocando, e dava canjas ao lado de Louis Armstrong, Dixie, Harry James, Glen Miller... E tocava bem. Sem puxa saquismo, tinha alguns registros do papai que eram iguais ao do Armstrong(alguns, fique bem claro). Ele também era doido pelo Paulinho da Viola, tanto que chegava a ser fisicamente parecido com ele. Tinha nascido no mesmo dia e ano do Chico Buarque, e afirmava peremptoriamente que tinha sido na mesma hora. Eu acredito que tem uma chance em 24 de ser verdade.

Minha mãe é beatlemaníaca. Ela era da minha idade quando os Beatles apareceram, e, enquanto morava no Rio de Janeiro, foi assistir "A hard day´s night" no cinema mais de trinta vezes. Ela viveu na época dos grandes festivais. Ela viu tudo, tudo. E adora tudo o que viu. Só não viu o nascimento da Bossa pois tinha menos de dez anos, e morava em Belém - e tudo chegava aqui em cima beeeeeeeeem depois do Sul, que recebia tudo beeeeeeeeeeeem depois da Europa, e por aí vai. Não tinham inventado a globalização.

Eu nasci em 85, pegando as rebarbas do Balão Mágico e do especial de TV Pirlimpimpim, e tinha muitas fitas cassete só minhas. Filha única/caçula, asmática, alérgica a qualquer coisa que tivesse poeira em cima, passava o dia dentro de casa sem irmãos pra pentelhar. Aprendi a usar o som e ouvia minhas fitinhas várias vezes ao dia. E via o Mágico de Oz diariamente (eu avisei que era meio obssessiva-compulsiva nesse ponto), e mesmo sem entender nada cantava as músicas do filme o dia inteiro.

3. Fenótipo

A transição do Balão mágico para coisas mais "adultas" aconteceu de um jeito peculiar. Em 1994, Tom Jobim morreu. Meu pai e minha mãe pareciam ter levado uma pedrada na cabeça. Lembro de ter visto MUITAS reportagens na TV, e todas com uma música do Tom ao fundo. Mas teve uma dessas reportagens que mostrou a gravação clássica de Águas de Março, com ele e a Elis Regina assobiando no estúdio.

Eu pirei. "É pau, é pedra, é o fim do caminho".

-Pai, tu tem essa fita?
-Tenho um cd.

Ele colocou. Eu fiquei mais de dois meses ouvindo Águas de Março no REPEAT. Sabia de cor a introdução de piano, os assobios no meio, as gargalhadas da Elis no final, padá badá bauá. Até que um dia, resolvi escutar o RESTO do disco. Corcovado (Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro...), Meditação (quem, acreditou, no amor no sorriso e na flor então sonhou sonhou...), Garota de Ipanema (sem comentários!), Samba de Verão (Você viu, só que amor, nunca vi coisa assim...). Endoidei. Eu não sabia o nome daquilo, então chamava de "disco do é-pau-é-pedra".

Minha mãe, sentindo cheiro de fã na área, comprou uma coleção que a Caras estava distribuindo junto com a revista. Quatro Cd´s e quatro Fascículos contando a história da bossa nova. Decorei praticamente cada parágrafo dos fascículos, lidos ao som dos discos. Era outro mundo.

Curiosa, fui remexer nos cd´s da minha mãe e do meu pai, e desencavei João Bosco (Castanhas gotas de cristais, que não morrem jamais...), Caetano (sem comentários) Chico, etc. etc. etc.

Sozinha deitada na rede do quartinho de música, eu procurava no rádio um som que parecesse com aquilo. Demorou, mas encontrei um programa que só tocava aquilo que denominam MPB (denominação incorreta, pois MPB é qualquer música brasileira que não seja erudita - e erudito no Brasil tá russo, né? Até que tem, mas é tão gueto...).

O nome do programa: Mesa de Bar.

Esquema: Gravar o programa inteiro em fita, ouvir mil vezes a fita durante o dia. Vocês devem presumir qual era o repertório desse programa, não? Andança, Djavan (vida e obra), etc etc etc. Mas o meu programa tinha um diferencial - tocava músicas daqui do Amazonas.

E foi na voz de Eliana Printes que eu ouvi Pais e Filhos pela primeira vez. Foi assim que eu conheci Célio Cruz (candeia de estrelas, para enfeitar a rua, quando o meu amor passaaaaaaaaaaaaaarrrr), Cileno (Feira hippie, hippie é feira livre), Torrinho (PORTO DE LENHA, TU NUNCA SERÁS LIVERPOOOOOOOL), Raízes Caboclas (Teu nome ressoa num belo cantar, oiara, oiara) e etc etc etc etc etc.

4. No, I don´t listen your musication

Talvez por ser meio nova demais e burrinha no inglês, só curtia música estrangeira se fosse instrumental. Tinha raiva da Madonna (ah, pecado...), e rolava de rir com aqueles caras tatuados sacudindo a cabeça na MTV. Mamãe achava que eles não tomavam banho, mas podia ser só o chuvisco embaçando a imagem.

Talvez por causa da minha obssessão-compulsão de ouvir zilhões de vezes a mesma música, nunca fui chegada a videoclipe.

5. Bombril na antena, um canal depois

Muita gente diz que colocava bombril na antena da TV pra pegar a MTV. No meu quarto, eu também colocava bombril na antena. Mas vocês já sacaram que eu pulava a MTV - canal 23, pois não havia bombril que fizesse o chuvisco ir embora..

Eu ia pro canal depois da MTV, que era o AmazonSAT, canal 44. Nos primeiro anos, ele ainda não tinha programação, e ficava o dia inteiro alternando horas inteiras de imagens da amazônia (floresta, rio, barcos, ribeirinhos, prainhas de rio) com horas inteiras de logotipo + relógio + músicas de artistas amazônicos. Data dessa fase minha paixão descontrolada pelo Nilson Chaves (sem comentários). Não tinha chuvisco e eu adorava.

Aliás, hoje não precisa mais de bombril, e o Amazon Sat já tem programação fixa, mas ainda passa muitas imagens amazônicas com fundo musical amazônico.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:02 PM


----------------------

5.10.05

Mais verbetes do meu Dicionário

Trabalho - troca de felicidade por dinheiro. Os patrões compram a sua felicidade e te dão dinheiro, com o qual você tenciona...comprar felicidade.

Dor nas costas - Consequência direta do trabalho.

Dor muscular na coxa - Consequência direta da felicidade...Ai...dificuldade de sentar às vezes também...

Cabelo - Durante a semana, você não lembra dele. No fim de semana, ele se vinga.

E-mail - Amontoado de letras que informam.

Revista Veja - Amontoado de letras que manipulam.

Sopão Maggi - Amontoado de letras nutritivas.

Spam - cruzamento entre o e-mail e a Revista Veja, alimentado por pessoas ingênuas.

Teste de Gravidez de farmácia - os quinze reais mais mal-empregados da vida de qualquer mulher. Ela compra pra tirar a dúvida, faz o teste e CONTINUA na dúvida. (Meninas, não neguem a verdade.)

Referendo - Uma das maneiras mais legais, válidas e democráticas de governar um país.

Referendo sobre o desarmamento - Desperdício de um domingo, desperdício de uma boa idéia em algo inútil, desperdício de tempo na televisão.

Sim - Se for um homem falando, significa sim. Se for umá mulher falando, PODE significar sim. Se for um pólítico falando, é mentira.

Não - Se for um homem falando, faça de conta que acredita e manipule a opinião dele. Se for uma mulher falando, continue insistindo até ela dizer sim. Se for um político falando, é mentira.
Lula - Marisco que eu nunca comi.


Lula2 - Homem barbudo que me inspira pena.

Feriados de outubro - dias das crianças, dia do aniversário de Manaus, dia do funcionário Público, dia de Finados. Ops, finados é em novembro.

Avião - Caixa de metal onde cabe metade do meu coração.

Interurbano - Telefonema caro que eu faço mais do que devo.

Belém - Cidade onde o tacacá custa R$1,50, muito distante pro meu gosto.

Saudade - Sentimento dolorido que motiva interurbanos para Belém.

Felicidade = Avião + Feriado - Interurbano - Saudade

Artista - É quem consegue vencer a saudade por meio de viagens de avião no feriado.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 2:07 PM


----------------------

4.10.05

Homenagem

Engraçado é que eu me acho parecida com ela...
Quando eu estava na sexta série, tinha de fazer um resumo de um livro. Ficou o esquema "cada membro da equipe resume um capítulo", e eu fiquei de juntar tudo com sequência lógica. E corrigir os erros dos meus colegas, tudo com ajuda de mamãe, claro. Ela sabia que se deixasse as coisas na mão das minhas equipes, eu ia acabar tirando quatro. Então, estabeleceu que minha equipe seria sempre eu e ela.

Logo na primeira linha da primeira página, veio a pancada:

"O escritor Moacir Scliar faz um relato de sua vivência escolar, reforçando o conseito contra a ditadura (...)"

Mamãe escandalizada:

-Conceito com "s"? Nossa, é conzeito! ♪ "Vai, conzeito vai, senão um dia, a casa cai! Menina..."♪

Isso virou uma piada interna dentro de casa. Aliás, sempre que eu leio a palavra conceito, lembro do "vai, conseito vai".

***********

Mamãe cantando na varanda, duas horas da manhã de ontem pra hoje:

♪ Chiquita Bacana, lá da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica!

Não usa vestido, não usa calção...Inverno pra ela é pleno verão!

Existencialista, com toda razão - só faz o que manda o seu coração!

E ficou repetindo em fade:

só faz o que manda o seu coração...

*********

Não tenho um disco sequer de Emilinha Borba, a Preferida da Marinha, na minha casa.

Tenho lembranças de adultos cantando marchinhas de Carnaval em dia de falta de luz, as velas formando sombras no quarto dos meus pais.

Eu só descobri ontem que Emilinha as gravou e consagrou, ao saber de sua morte.

Tchau, Emilinha. Boa viagem.




***********

♪ Rema, rema, rema, remador...
Quero ver depressa o meu amor!
Se eu chegar depois do sol raiar,
Ela bota outro em meu lugar!

Se a canoa não virar, olê, olê olá
Eu chego lá! ♪

*****************

Músicas citadas: Vai com jeito(João de Barro), Chiquita Bacana (João de Barro/Alberto Ribeiro)e a Marcha do Remador (Antonio Almeida/Oldemar Magalhães)
(e eu que achava que era música folclórica, tipo ciranda-cirandinha... tem até compositor, vejam só.)

As letras completas e muitas outras coisas podem ser encontradas no site Inesquecíveis Músicas Fagueiras .

Pelas datas de gravações, concuí que essas canções foram parte do fim da infância da minha mãe, quando ela tinha de de sete a quinze anos. Era o que tocava no rádio, nas ruas, durante o carnaval.

E eu? Eu ouvia...Boquinha da Garrafa e É o tchan, brrrrrrr!

Depois me perguntam porque eu gosto tanto de música antiga...


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:47 PM


----------------------

3.10.05

By starlight

- Mas sim, dá pra me explicar porque tu vieste pra cá?


Meus pensamentos: Por que eu quis; por que eu ando precisando achar o caminho de volta pra mim; por que você é uma grande parte desse caminho, e eu não podia ficar longe de você hoje; porque eu estou absolutamente feliz, e com vontade de celebrar; Porque sem você, qualquer celebração que eu faça vai ter menos sabor; porque eu sabia que você precisava que eu te fizesse dar risada; porque tem mil coisas que eu preciso saber e você pode ensinar.

Pensei tudo isso em sete segundos. Respondi:

- Por que você é meu amigo, e eu só tive força pra sair de casa sem jantar e vencer o sono que eu tô sentindo pois sabia que ia te ver. (me jogando na grama molhada) olha, o Cinturão do Caçador!
- Hein?
-As "três marias". Elas são o cinto da constelação do Caçador.
- E cadê a constelação?
- Ali...(riscando o céu com o dedo) ali...aquela maior é na testa, aquelas em curva são o braço. Ali... na outra tem a arma.
- (sorriso de quem tá se sentindo menos preocupado)
- Olha só, vieram todas...
- o quê?
- (apontando com o lábio inferior para o céu) Elas.

O Caçador Órion e seu cinto fashion


Tem vezes que uma decisão certa faz você cruzar uma barreira que já devia ter sido cruzada.

É nessa hora que o amigo vira irmão.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:07 PM


----------------------

Este é o blog de alguém que tem vinte e um anos, gosta de ler, gosta de que sua vida seja um livro aberto e gosta de gostar. E falta um ano pra receber um canudo.

Todo dia uma aventura nova. Toda semana uma odisséia. De vez em quando uma atualização


Gostos:

*Cheiro de Fanta Morango* *Sabor de hortelã* *Lençol acetinado* *Violão* *Bolero* *Lua cheia* *Teatro* *Bossa Nova* *Clube da Esquina* *Massagem com óleo Johnson's* *Conjectura de Poincaré* *Beijo no pescoço* *Abacaxi geladinho* *Falar sem parar*



Aventuras em grupo


Sotaques, um blog globalizado
O melhor blog da Internet Galáctica

Blogs

Licor de Marula com flocos de milho açucarados
Alma em Punho
Apostos
appothekaryum
\o/Bloggette
Balde de Gelo
Blog de papel
Cala a boca, que eu tô falando!
Catarro
Oh, Bravo Figaro!
Cartas Curtas
O Coyote é Físico teórico! [E tem cara de artista]
Cumequié?
Copy and Paste
Drops da Fal
Não gostou? Vem me pegar!
Mau humor, mentiras e fé patológica
Mad Tea Party
Pensar Enlouquece, pense nisso.
Blog de Gestão
Gravataí Merengue
Caryorker
O biscoito fino e a massa
John Doe - Juventude, sobriedade e poesia
Jesus, me chicoteia!
Louca por blog? É a mãe! A margarida Inventada
Marmota, mais dos mesmos...
Megeras Magérrimas
Não discuto, por Ticcia Antoniette
Nóvoa em folha
Luabella e suas fases
Liberal, Libertário, Libertino
poliCARPE DI EMili
O estupendo Poeta Matemático [Trinomial e o escambau]
Menina Mateira que não posta nunca
Madame Mean

Sites

Cocadaboa
Malvados
Omelete
Embarque


Frase que fez clique

"Brilhar pra sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol."
Wladimir Maiakóvski
Fonte: Anvörg


Arquivos