31.10.05
Invenção chibata
Percepção minha - é difícil encontrar algo que seja exclusividade amazonense, pois o estado é bastante jovem e influenciado por grande diversidade de povos.
O Amazonas tem uma população composta por muitos nordestino-descendentes, filhos, netos e bisnetos dos Seringueiros do início do século ou dos "Soldados da Borracha" da Segunda Guerra Mundial; muitos indígena-descendentes, que têm de herança a cor morena da pele, o formato do rosto e os cabelos lisos. Sem falar nos sudeste-descendentes, filhos de pessoas que subiram do Sudeste pra cá nos anos 70, grande parte por causa da criação da Zona Franca, e mais uma porção de grupos diversos.
E porque estou falando isso? Porque o Amazonas tem uma identidade confusa. É complicado encontrar algo de que se possa dizer "isso é TIPICAMENTE AMAZONENSE".
Eu, por exemplo: sou amazonense. Filha de uma Paraense branca de cabelo liso e preto com um Roraimense moreno de cabelo crespo, com bisavô Português, Bisavó índia macuxi,raízes maternas no Ceará, raízes paternas em algum lugar entre Portugal e Líbano, e com alguma influência africana no meio disso tudo. Sou branca que nem um picolé de coalhada, tenho cabelo preto e cacheado. Muitas pessoas já disseram que tenho jeito de portuguesa ou espanhola, e várias vezes já duvidaram que eu fosse daqui. Ora, eu sou amazonense, mas não sei se poderia ser considerada um fruto da terra.
Assim como é comigo, é com os usos e costumes daqui.
A gente gosta de comer tapioquinha,tomar açaí, que são de origem indígena.Mas também se come tapioquinha e se bebe açaí no Pará, no Acre, em Rondônia e Roraima.
No Amazonas se ouve muito forró. Os músicos são daqui, mas o forró é nordestino - e os forrozeiros amazonenses cantam com sotaque nordestino...
Um dos pratos mais gostosos é Surubim ao molho de camarão. O surubim é um peixe dos rios daqui, mas camarão...é um fruto do mar. E aqui não tem mar.
Quase toda festa de aniversário amazonense conta com vatapá. Os churrasquinhos de rua também vendem pratos compostos por: um espeto de churrasco, arroz, vatapá, maionese de batata com cenoura e farofa. O vatapá é baiano por definição, não é mesmo?
Mas não pensem que o Amazonas não tem nada de seu. Tem sim: há expressões linguísticas que só acontecem no curso do Solimões. O título do post é uma delas -
chibata é algo bom, legal, gostoso. Chico Buarque é MUITO chibata, por exemplo. E tem uma discografia
maceta, ou seja, muito grande.
Agora, vem o motivo deste post: a criação amazonense chamada X-caboquinho.
Sabe o pão? É, o pão. Mistura de farinha de trigo, água e fermento, assada no forno, crocante e dourado por fora, fofo e branco por dentro, sem gosto específico e com um maravilhoso cheiro...de pão.
Sabe o queijo coalho? Isso, o queijo coalho. Feito a partir da fermentação do leite, acrescido de sal. Branquinho, salgadinho, vendido em qualquer feira.
Sabe a banana? Claro que sabe. A banana, fruta símbolo do Brasil, macia, com uma imensa variedade de tamanhos/cores/nomes, mas sempre com aquele jeitão bananoso. Nunca conheci uma pessoa que afirmasse não gostar de banana. Aqui em Manaus, a banana é frita em grandes tachos e vendida na rua,em carrinhos, como pipoca ou batata frita. Pode ser doce (com calda de açúcar queimado) ou salgada (cortada verticalmente e seca no forno); pode ser frita num ponto mole, ou durinho (como um biscoitão).
Sabe o tucumã? NÃO? Bem...Como explicar? Pra quem conhece, na aparência ele é primo da pupunha. O tucumã é uma frutinha de uma palmeira amazônica(e eu suponho que seja mais comum no Amazonas, pois em Belém não se vê à venda).

É pequeno, do tamanho de uma bola de tênis de mesa (nunca pingue-pongue, nunca). Tem casca fina, não tão fina quanto uma casca de maçã, não tão grossa quanto uma casca de manga.O caroço é grande (80% do volume da fruta), preto e duro, sendo matéria prima para anéis, brincos, e outras coisinhas do estilo. A polpa é oleosa, alaranjada, fibrosa e tem um sabor que fica entre o salgado e o oleoso, sendo na verdade um inexplicável gosto salobro, que não parece com nada que eu conheça - é gosto de tucumã mesmo. Nilson Chaves tem uma música, Flor do Destino, que diz :"Tu me deste um sonho/ eu te trouxe um gosto de tucumã/ Tu me deste um beijo/ e a gente se amou até de manhã/ Veio o sol nascendo/ e nos despertou/ da gente virando terra, mato, galho e flor! " Eu adoro tucumã, apesar de minha mãe reclamar que, quando come tucumã, passa o dia arrotando com gosto da fruta.


O X- caboquinho é a junção dos elementos descritos acima. Junte um pão francês, passe margarina e ponha na chapa. Derreta um retângulo de queijo coalho, ponha dentro do pão. Bote também umas tiras de banana frita, em ponto mole, sem sal nem açúcar. Acrescente uns pedacinhos de tucumã, sem economizar. Feche o pão e achate-o na chapa. Mastigue e agradeça a Tupã.

Quando andar por Manaus, não deixe de experimentar esse sabor. Cedinho, acompanhado de um copo de café com leite, em uma banquinha de café que tem de montão pelas calçadas daqui.
Ou faça como um rapazinho paraense, que entrou em contato com essa iguaria às duas da tarde de um domingo nublado, e se tornou fã declarado do X-Caboquinho, assim como eu sou fã alucinada da maniçoba, essa feijoada verde absolutamente paraense. A vida é feita de trocas, não é mesmo?
Menina Prodígio se aventurou aqui às
2:14 PM
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