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18.10.05

Psiu, psiu!

Já há algum tempo eu penso em escrever sobre isso - até já tinha prometido pra ele .

É garantido pelas leis o direito de ir e vir. Dentro de certas regras, é claro - não é permitido passear dentro da casa dos outros sem ser convidado, atravessar fora da faixa, ir ao exterior sem passaporte. Mas, em condições normais de temperatura e pressão (ah, longínquo Ensino Médio) ninguém tem o direito de importunar enquanto você vai ou vem.

Então, por favor, me respondam: porque os homens acham que as mulheres gostam de ouvir baboseiras quando andam pela rua?

"Oi, linda","Amor, você tá linda","Ai, delícia","Nossssssa", o detestável e horrível "Vem cá, princesa" e o pior de todos os piores: "Eu não sabia que boneca vinha fora da caixa". Sem falar no inoportuno e lascivo "Oooooooooi".

Eca, eca, eca. Me deu até gastura de escrever essas coisas e lembrar.

Por quê? Porque uma mulher não pode andar pela rua em silêncio? Ou, por cordialidade, ouvindo "Bom dia, moça"? Porque uma mulher tem de ser vista como ALGO que passa? Porque essa coisificação?

Quem deu a eles o direito de perturbar o meu silêncio? Eu é que não fui. E não gosto disso. Percebo nisso apenas um resquício machista e um desejo de dominar mesmo.

Dominar? Sim. Ao menos comigo, esses episódios só acontecem quando estou vestida normalmente, pra estudar ou trabalhar. Nas vezes em que saio na rua com maquiagem de teatro (sombra azul com batom vermelho, muito rímel e purpurina no cabelo, ocasionalmente uma estrela desenhada na bochecha), nenhum homem mexe comigo. Ficam observando meio de canto (e é justo que observem, pois é chamativo mesmo), mas nenhum joga piadinhas. Sabe por quê? Por que esses homens não encaram uma mulher segura de si, exuberante, com consciência de que está chamando a atenção. Eles só jogam cantadas pra mulheres aparentemente desprotegidas, "comuns", estudantes ou trabalhadoras apressadas, que vivem de olhos baixos pra não ter que encarar a expressão gulosa do panaca.

Nenhum está interessado na pessoa - só enxergam a mulher, peito-cintura-bunda-coxas-vulva. Que nem precisa ser mulher, pode ser uma menina de dez anos. E não precisa ser bonita, pode até ser parecida comigo.

O que um cara espera quando faz esse tipo de gracinha com uma mulher desconhecida? Que ela fique hipnotizada e arranque a roupa? Que faça feito a Dama do Lotação e, possuída por uma onda de instinto primata, foda furiosamente com ele? Que se apaixone perdidamente e fuja de casa pra morar com ele? Que seja mais feliz por ter ouvido uma cantada? Que se sinta elogiada?

Não: só visa causar pejo. Ele (inconscientemente?) quer que ela baixe os olhos e fique sem saber o que fazer, para poder comprovar que tem poder sobre ela. Ele pode importuná-la e ela não pode reagir.

Quão desprezível é alguém que se compraz em perturbar o trajeto de outro?

*******

Já passei um momento de pânico. Quem já andou perto da minha casa sabe que meu bairro é cheio de ruas estreitas, tortuosas e inclinadas. É um bairro que tem tanto casas quanto estabelecimentos comerciais: mercadinhos, farmacinhas, lanches (um termo amazonense para Lanchonete), lojas de roupas e...açougues.

Estudo inglês aos sábados, e depois de descer do ônibus, ainda tenho de andar um bom pedaço a pé. Acho que são uns vinte minutos andando, sendo que sete minutos são gastos na travessia de uma rua comprida, estreita, deserta e muito mal-frequentada. Subindo ladeira, pra completar.

Lá vou eu, sol de meio-dia, calça jeans e blusa de manga três-quartos, chinela havaiana verde. Passa uma Kombi carregada de peixe. No banco dianteiro, o motorista e mais três caras.

Começa:

-Nossa, que coisa mais linda! Não quer uma carona, amor? Tá sol...
-Só de te ver o calor aumentou...Vem sentar no meu colo...

Blá blá blá. Eu, fingindo não notar, esperando que a Kombi fosse embora. Ela continuou, me ultrapassou, o cara que estava na janela do passageiro botou meio corpo pra fora e ficou gritando qualquer coisa na minha direção. Teria ficado tudo bem, se a Kombi não tivesse parado.

Eu continuei andando, e a maldita da Kombi me esperou passar. Ficou andando emparelhada comigo, e o cara esticando o braço pra passar a mão em mim, ou puxar meu braço, sei lá.

Do meu lado direito, um muro alto e uma calçada de dois palmos de largura. Do meu lado esquerdo, os quatro cavaleiros do Akombicalipse. Presa. Só dava pra andar pra frente.

Não ia adiantar correr. Eu apressei o passo, e fingia não perceber que o cara estava puxando meu braço esquerdo e passando a mão no meu cabelo. Olhava fixamente para o chão e rezava pra que a rua acabasse logo, que eles fossem em frente e eu pudesse dobrar a esquina.

Foram dois ou três minutos de pavor. Não tinha ninguém por perto, e se eu gritasse, só quem ia ouvir eram os tijolos do muro da escola (sábado, meio dia? Nem o vigia devia estar lá). Eu andando, o cara pegando no meu cabelo, os outros gargalhando, o cheiro de peixe, a rua que não acabava nunca. O medo de que eles resolvessem descer da kombi e fazer uma maldade comigo.

Sentia o meu rosto pegando fogo por causa da humilhação, da vergonha, do medo, do desrespeito. Lembrei de uma coisa que a minha mãe sempre diz: "Quando tu te sentires ameaçada por alguém, reza pro anjo da guarda da pessoa. Ele precisa de ajuda pra não deixar a pessoa cometer o mal." Rezei desesperadamente, gritando mentalmente pra que aquilo acabasse. Olhava e via meus pés, um na frente do outro, depressa, depressa, depressa.

De repente, a rua acabou. A Kombi acelerou e desceu a ladeira, o cara ainda com meio corpo fora da janela, me jogando beijos e acenando.

A reação do nervosismo veio, e eu comecei a correr. Dobrei a esquina, desci a ladeira escorregando na areia de uma construção, corri dois quarteirões sem parar. Quando faltavam três ruas pra chegar em casa, parei e senti o sangue subindo no rosto. Os joelhos tremendo sem parar.

Sentei na calçada e chorei de raiva e nervoso.

********

E não são só os peões de obra não. De todas as idades (até os menores, de nove ou dez, e os mais velhos, de sessenta ou mais), de todas as classes sociais, de todas as cores. A pé, de bicicleta ou de carro (sendo que, nesse caso, a cantada é acrescida de duas buzinadinhas e uma piscada de farol). Bombeiros, Policiais, Médicos, Peixeiros, Desocupados-que-ficam-sentados-no-meio-fio, Bêbados. A única classe que nunca me importunou foram os Frentistas. Palmas para eles.

E sempre com desconhecidas. Em um lugar onde há uma chance de ver a moça novamente, os panacas se controlam (Universidade, Escola, curso de saxofone, Eventos).

Rapazes que lêem esse blog: vocês fazem isso? Por quê?
Moças que lêem esse blog: vocês passam por isso? O que pensam?

Todos que lêem esse blog: Ainda há chance de conseguir um mundo com mais respeito, gentileza e cortesia?

*******

Pronto, postei . Em breve, um post sobre gente que cospe na rua.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:28 PM


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Este é o blog de alguém que tem vinte e um anos, gosta de ler, gosta de que sua vida seja um livro aberto e gosta de gostar. E falta um ano pra receber um canudo.

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Fonte: Anvörg


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