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7.10.05

Você é música, é o meu coração, você é música, a minha cançããããããão

1. Esclarecimento inicial

Desde pequena, gosto muito de música. "Gosto muito" talvez não seja o mais adequado. Sou meio obsessiva-compulsiva, aquela pessoa chata que repete a mesma faixa do CD 48.653 vezes por dia, cantando um segundo antes da gravação pelo prazer de adiantar-se ao cantor, decorando as notas dos solos de sax, piano e guitarra. Esta sou eu, muito prazer.

2.Genótipo

É bem possível que minha fascinação pela música tenha começado antes dos três anos. Quem lê esse blog sabe que meu pai era músico amador, aficcionado por jazz, blues e coisas ricas em melodia. Ele tinha um aparelho de som muito bom (para a época), adquirido na saudosa Zona Franca de Manaus, que possibilitava gravar sons ambientes em fita k-7, por meio de um microfone prateado. Pois bem, ele gravava na fita o som dele tocando, e dava canjas ao lado de Louis Armstrong, Dixie, Harry James, Glen Miller... E tocava bem. Sem puxa saquismo, tinha alguns registros do papai que eram iguais ao do Armstrong(alguns, fique bem claro). Ele também era doido pelo Paulinho da Viola, tanto que chegava a ser fisicamente parecido com ele. Tinha nascido no mesmo dia e ano do Chico Buarque, e afirmava peremptoriamente que tinha sido na mesma hora. Eu acredito que tem uma chance em 24 de ser verdade.

Minha mãe é beatlemaníaca. Ela era da minha idade quando os Beatles apareceram, e, enquanto morava no Rio de Janeiro, foi assistir "A hard day´s night" no cinema mais de trinta vezes. Ela viveu na época dos grandes festivais. Ela viu tudo, tudo. E adora tudo o que viu. Só não viu o nascimento da Bossa pois tinha menos de dez anos, e morava em Belém - e tudo chegava aqui em cima beeeeeeeeem depois do Sul, que recebia tudo beeeeeeeeeeeem depois da Europa, e por aí vai. Não tinham inventado a globalização.

Eu nasci em 85, pegando as rebarbas do Balão Mágico e do especial de TV Pirlimpimpim, e tinha muitas fitas cassete só minhas. Filha única/caçula, asmática, alérgica a qualquer coisa que tivesse poeira em cima, passava o dia dentro de casa sem irmãos pra pentelhar. Aprendi a usar o som e ouvia minhas fitinhas várias vezes ao dia. E via o Mágico de Oz diariamente (eu avisei que era meio obssessiva-compulsiva nesse ponto), e mesmo sem entender nada cantava as músicas do filme o dia inteiro.

3. Fenótipo

A transição do Balão mágico para coisas mais "adultas" aconteceu de um jeito peculiar. Em 1994, Tom Jobim morreu. Meu pai e minha mãe pareciam ter levado uma pedrada na cabeça. Lembro de ter visto MUITAS reportagens na TV, e todas com uma música do Tom ao fundo. Mas teve uma dessas reportagens que mostrou a gravação clássica de Águas de Março, com ele e a Elis Regina assobiando no estúdio.

Eu pirei. "É pau, é pedra, é o fim do caminho".

-Pai, tu tem essa fita?
-Tenho um cd.

Ele colocou. Eu fiquei mais de dois meses ouvindo Águas de Março no REPEAT. Sabia de cor a introdução de piano, os assobios no meio, as gargalhadas da Elis no final, padá badá bauá. Até que um dia, resolvi escutar o RESTO do disco. Corcovado (Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro...), Meditação (quem, acreditou, no amor no sorriso e na flor então sonhou sonhou...), Garota de Ipanema (sem comentários!), Samba de Verão (Você viu, só que amor, nunca vi coisa assim...). Endoidei. Eu não sabia o nome daquilo, então chamava de "disco do é-pau-é-pedra".

Minha mãe, sentindo cheiro de fã na área, comprou uma coleção que a Caras estava distribuindo junto com a revista. Quatro Cd´s e quatro Fascículos contando a história da bossa nova. Decorei praticamente cada parágrafo dos fascículos, lidos ao som dos discos. Era outro mundo.

Curiosa, fui remexer nos cd´s da minha mãe e do meu pai, e desencavei João Bosco (Castanhas gotas de cristais, que não morrem jamais...), Caetano (sem comentários) Chico, etc. etc. etc.

Sozinha deitada na rede do quartinho de música, eu procurava no rádio um som que parecesse com aquilo. Demorou, mas encontrei um programa que só tocava aquilo que denominam MPB (denominação incorreta, pois MPB é qualquer música brasileira que não seja erudita - e erudito no Brasil tá russo, né? Até que tem, mas é tão gueto...).

O nome do programa: Mesa de Bar.

Esquema: Gravar o programa inteiro em fita, ouvir mil vezes a fita durante o dia. Vocês devem presumir qual era o repertório desse programa, não? Andança, Djavan (vida e obra), etc etc etc. Mas o meu programa tinha um diferencial - tocava músicas daqui do Amazonas.

E foi na voz de Eliana Printes que eu ouvi Pais e Filhos pela primeira vez. Foi assim que eu conheci Célio Cruz (candeia de estrelas, para enfeitar a rua, quando o meu amor passaaaaaaaaaaaaaarrrr), Cileno (Feira hippie, hippie é feira livre), Torrinho (PORTO DE LENHA, TU NUNCA SERÁS LIVERPOOOOOOOL), Raízes Caboclas (Teu nome ressoa num belo cantar, oiara, oiara) e etc etc etc etc etc.

4. No, I don´t listen your musication

Talvez por ser meio nova demais e burrinha no inglês, só curtia música estrangeira se fosse instrumental. Tinha raiva da Madonna (ah, pecado...), e rolava de rir com aqueles caras tatuados sacudindo a cabeça na MTV. Mamãe achava que eles não tomavam banho, mas podia ser só o chuvisco embaçando a imagem.

Talvez por causa da minha obssessão-compulsão de ouvir zilhões de vezes a mesma música, nunca fui chegada a videoclipe.

5. Bombril na antena, um canal depois

Muita gente diz que colocava bombril na antena da TV pra pegar a MTV. No meu quarto, eu também colocava bombril na antena. Mas vocês já sacaram que eu pulava a MTV - canal 23, pois não havia bombril que fizesse o chuvisco ir embora..

Eu ia pro canal depois da MTV, que era o AmazonSAT, canal 44. Nos primeiro anos, ele ainda não tinha programação, e ficava o dia inteiro alternando horas inteiras de imagens da amazônia (floresta, rio, barcos, ribeirinhos, prainhas de rio) com horas inteiras de logotipo + relógio + músicas de artistas amazônicos. Data dessa fase minha paixão descontrolada pelo Nilson Chaves (sem comentários). Não tinha chuvisco e eu adorava.

Aliás, hoje não precisa mais de bombril, e o Amazon Sat já tem programação fixa, mas ainda passa muitas imagens amazônicas com fundo musical amazônico.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:02 PM


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Fonte: Anvörg


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