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3.11.05



Feriado. No cemitério, muita gente, muito sol, muitos vendedores desesperados (Quatro velas por cinco reais! Uma guirlanda por sete! Olha a flor, patroa!).Eu e mamãe olhamos as velas queimarem até sobrar um montinho de papelão molhado de parafina incendiado. Frei Fulgêncio estava celebrando a missa (e aquele homem é velho desde que eu sou criança, aquele barbão lindo, aquele sorriso sonhador ao reger o coral). Como coroinha, tinha um frade franciscano. Com aquele manto marrom, capuz arreado e cordão na cintura. Chamou minha atenção, pois era jovem e bonito (muito bonito, tinha um jeitinho de Danton Mello). Devia ter dezoito anos, e sorria, sorria, enquanto organizava o instrumental da liturgia. Sorria enquanto incensava o missal, antes da leitura do Evangelho. Jovem, bonito, e vestido como Francisco de Assis. Fiquei refletindo que, se ainda há pessoas que escolhem o caminho da ordenação (que, hoje em dia, não é tão atraente e vantajoso quanto na Idade Média), talvez ainda tenha um jeitinho de fazer o mundo agir movido por ideais mais puros, mesmo que não sejam ideais religiosos. Quem sabe a mesma motivação dele é o que me leva a desligar a torneira enquanto escovo os dentes, e me faz acreditar em honestidade, amizade, confiança e desapego.

Saindo do cemitério.

- Mamãe, eu quero uma rosa.
- Pra quê?
- Pra ter.
- Procura uma aí.

Muitas bancas de flores, poucas rosas. Achei uma banca que vendia rosas a um real, e desconfiei...Muito barato! Examinando as flores, vi que estavam amassadas e murchas, com os talos quebrados e as pétalas machucadas. Além de serem oito ou nove, de muitas cores diferente. Tudo levava a crer que a vendedora havia assaltado algumas sepulturas...e esse tipo de prática eu não alimento.

Comprei um botão de rosa champanhe (LINDO, está lá em casa), e voltei pra casa. Encontrei um belo hóspede adormecido na sala.

- Bom dia, Artista...
- Hein? UH-hã, a gente vai no cemitério?
- Já fomos, já voltamos, são onze da manhã. Que tal tomar banho pra almoçar?

Almoçamos maniçoba (delicioso presente da mãe, dele, paraensíssimo), e começamos a conversar. Falamos sobre o Budismo, e ele me disse que "de acordo com o Budismo, Sidarta Buda conseguiu sair da Roda de Samsara. A Roda de Samsara é uma roda, à qual uma pessoa está amarrada. Quando a pessoa fica de cabeça pra baixo, ela sofre; quando fica de cabeça pra cima, se alegra. A vida é feita do movimento da roda, e o centro da roda é o umbigo - então, uma maneira de evitar o sofrimento seria olhar apenas para o próprio umbigo. Buda se libertou da roda, mas não quis ir sozinho - e quando em vez, reencarna para auxiliar a humanidade a sair dessa roda de sofrimento.

E ele prosseguiu:

- De uma maneira muito menor, eu fiz isso. Sabe, na vila onde eu moro, eu me lembro de muita coisa: eu pequeno indo pra escola, eu saindo cheio de malas, voltando da Faculdade carregando um monte de livro, saindo carregando o pôster-resumo do meu projeto de pesquisa, entrando e saindo com amigo, namorada, namorada que virou amiga, de bicleta... E eu sempre via na calçada as mesmas pessoas. Eu era pequeno, e tinha outros meninos que nem eu. Eu fui crescendo, o tempo passando, e agora eu vejo outros meninos na calçada, que são FILHOS dos meus colegas de infância.(pausa) Eu só tenho vinte anos...E eles também! Eu fui o primeiro de lá que passei no vestibular. (pausa) Quando eu tava comemorando, todo sujo de ovo, tinta, farinha, uma das moradoras mais antigas da vila me pegou pelos ombros e falou -"Obrigada. Obrigada por você ter mostrado pras crianças daqui que é possível. Obrigada a você e sua família, por terem provado que quem nasce aqui, não precisa morrer aqui." Tudo por causa da minha mãe e do meu pai. Eu tenho certeza que eles várias vezes abriram mão de fazer as coisas pra eles pra comprar livro pra mim e pro meu irmão. Tenho CERTEZA. E sabe quando foi que eu percebi o valor disso? (pausa) Quando o ônibus onde eu tava saindo da universidade foi assaltado, e quem assaltou foram dois vizinhos meus. Foi aí que eu vi que, se não fosse a minha mãe, eu podia estar fazendo a mesma coisa. Foi aí que eu vi que eu tinha saído daquela roda...aquela roda que continua levando mais e mais gente que podia ser gente boa. (longa pausa) Um dos dois morreu de overdose...e eu não esqueço o dia em que a avó dele foi lá em casa, pedir pra usar nosso telefone e avisar que ela não ia trabalhar "porque o Fulano morreu ainda agora." Sem um traço de emoção. Ela SABIA que ia acontecer, nem se importava mais. E eu não posso deixar isso continuar acontecendo. (sorrindo) Depois que eu passei no vestibular, mais cinco pessoas de lá passaram... (longa e trêmula pausa) E eu me sinto obrigado a fazer QUALQUER COISA que eu possa pra que mais gente saia dessa roda, desse ciclo, dessa porcaria de prisão que se repete no Brasil. Eu me sinto...Eu me sinto com uma dívida (pausa) eu...eu...(pausa para enxugar os olhos) eu vou ser doutor, viu? Vou sim. "

E você nota que aquele cara na sua frente é movido pela mesma coisa que você e o rapaz franciscano.

E você percebe que se precisasse arrancar a própria pele e vender na feira pra que aquele menino moreno fizesse doutorado, você arrancava.

E você vê que tudo está perdido mesmo, o juízo que você pensava que tinha foi pras cucuias, e você está chorando também enquanto lava a louça do almoço, porque esse amor é a coisa mais forte que já aconteceu na sua vida, e nunca mais você vai ser a mesma.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 12:03 PM


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Fonte: Anvörg


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