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24.11.05

Obrigada, Marco Antônio Uchôa.

Antes de sair de casa, eu e mamãe sempre assistimos ao programa Mais você, da Ana Maria Braga. Hoje de manhã, o programa estava indo bem, e quando chegou ao finalzinho, a Ana começou a falar com a voz trêmula. Eu e mamãe paramos de conversar pra prestar atenção.

Marco Uchôa morreu. Não confunda com o Marcos Uchôa, aquele da guerra do Kuwait e do Tsunami, que é correspondente em Londres. Foi o Marco Uchôa, que fazia reportagens pro Fantástico.

Marco Uchôa tinha TRINTA E SEIS ANOS. . Fazia reportagens com ênfase no ser humano e nos aspectos sociais do Brasil.

Isso eu já sabia.

O que eu não sabia, e que a Ana Maria falou entre soluços (poucos apresentadores choram tanto quanto ela, mas hoje ela quase perdeu o controle), era que Marco Uchôa fazia matérias sobre pobreza e infância por ter sido, ele mesmo, um menino carente. Vendeu bombom no sinal, saiu do Ceará ainda menino, morou em instituição para menores porque sua mãe não podia cuidar dele. Aos dezessete anos, começou a trabalhar na Folha, sendo um dos repórteres mais jovens de lá. Se formou em Jornalismo, escreveu um livro (Crack - o caminho das pedras) que ganhou o PRÊMIO JABUTI de melhor livro-reportagem.

Eu nem poderia imaginar isso, e fiquei pensando em como deve ter sido difícil pra ele fazer a faculdade, e como ele devia se orgulhar de ter um bom emprego, ser um profissional reconhecido. E comecei a pensar: porque um rapaz tão jovem morreu? Será que foi acidente?

Depois, foram exibidas imagens do Marco Uchôa no meio de um monte de embrulhos de presente. Ele fazia um trabalho de apoio pra uma instituição de menores de rua. Ia lá, fazia as crianças escreverem cartas pedindo seus presentes de Natal, e depois ia em todos os departamentos da rede Globo recolhendo doações. As imagens eram meio ruins, eu suponho que tenha sido brincadeira de algum câmera da Globo, filmando-o enquanto preparava os presentes. As imagens mostravam-no imprimindo cartões ("Jéssica, feliz Natal e que o ano novo seja muito legal", eu li em um deles), fazendo laços, cortando papel de presente.

Eu comecei a chorar em silêncio. Aquela sensação de "poxa, quem poderia imaginar uma coisa dessas?" Na TV, a Ana Maria Braga quase não conseguia falar. Disse que as pessoas que tiveram o privilégio de ter o Marco Antônio como amigo nunca esquecerão dele. Disse também que, após uma semana no hospital, já sabendo que não ia ficar muito tempo na Terra, Marco pediu que não abandonassem esse trabalho, e deixou como mensagem aquela música gravada pelos Titãs, Epitáfio. Uma das editoras do Fantástico e outra repórter do Globo Esporte darão prosseguimento ao trabalho dele naquela instituição. Nessa hora, foi a mamãe quem começou a chorar.

Mamãe, trêmula, me pediu pra procurar na internet a causa da morte de Marco Uchôa. Descobri que ele faleceu por causa de um tumor maligno e virulento nos ossos, chamado osteossarcoma. Há dois anos, lutava contra a doença, já tendo passado por uma cirurgia. Nos meses mais recentes, o tumor entrou em processo multimetastásico, ou seja, se espalhou para vários outros órgãos, como os pulmões.

Eu estava chorando por ter sido profundamente tocada pelas atitudes daquele rapaz. Estava chorando por reclamar tanto de como as pessoas são chatas e mesquinhas, e perceber que eu havia me coberto com uma capa de cristandade, me considerando uma pessoa "bem boazinha, até". Estava chorando por ter decidido que não dá mais. Não dá mais pra eu querer e ficar só nisso. Chega uma hora em que você precisa queimar os navios, e não deixar rota de fuga, não permitir que os hábitos antigos e inadequados voltem a fazer parte da sua vida.


***************

Liguei pra mamãe do trabalho:

- Mãe, encontrei. O Marco Uchôa morreu de câncer no osso da perna.
- Prodígio...
- Hum?
- Eu vou contigo na ação de Natal.
- Oh, mãe...

A ação de Natal está sendo organizada pelo pessoal da Faculdade. Vai ser numa comunidade bem carente MESMO daqui de Manaus (Bairro Grande Vitória). Vai ser no dia 24 de dezembro, de manhã e à tarde. Ela estava tentando me demover de participar...

***************

Não conheci o Marco Uchôa pessoalmente, mas sei que agora a sua dor já passou. Espero que as dificuldades vividas por ele tenham zerado a cota dele, e que daqui em diante ele cresça constantemente em sabedoria e bondade. E, enquanto escrevo esse texto, espero que minhas vibrações de gratidão cheguem à ele. Que ele saiba que sua vida (não o fim dela) fez algo fazer clique dentro de mim, e da minha mãe também. Que eu consiga também diminuir um pouco a solidão de alguém. Que neste Natal, as luzes acesas não sejam somente as decorativas, das quais eu gosto tanto.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 10:08 PM


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