<BODY>
7.12.05

Reencontro

Saí de casa, verifiquei se todas as portas e janelas estavam trancadas, o botijão de gás fechado, as luzes apagadas. Guardei a chave no bolso e caminhei pelas ruas inclinadas, pensando em quanto tempo eu passei sem falar comigo.
Andava com saudade de mim, isso era verdade. Apesar da vontade de perguntar para mim como eu ia, o que eu estava fazendo de bom, tive receio - da última vez que me encontrei, tive uma briga feia comigo, saí chorando e tentei esquecer o número de meu telefone. Não consegui: sempre que alguém perguntava,eu ainda sabia meu número de cor. Apesar de não admitir, eu sou uma das pessoas mais importantes na minha vida...
Enquanto caminhava, me perguntava como reagiria se falasse comigo mais uma vez. Afinal, o tempo passa, ficamos mais maduros, e se aquela conversa que causou lágrimas se repetisse hoje, provavelmente eu compreenderia melhor meus argumentos e não choraria com raiva de mim mesma.
Cheguei ao parque de diversões. Havia marcado um encontro comigo, mas ainda faltavam vinte minutos, e eu nunca fui muito pontual. Podia esperar.
Olho pra todos os lados, sem saber bem o que fazer. "Onde tem um lugar onde eu possa ficar esperando sem que ninguém perceba que eu estou esperando?" (Nada pior que ficar parecendo um açucareiro, os braços na cintura e o olhar perdido.)
Decido ficar perto do carrossel: os olhos podem ficar seguindo os movimentos das crianças e seus pais, e ninguém lá vai perder tempo prestando atenção em mim, com tantos cavalinhos coloridos por perto.
É interessante observar como a criança consegue se fascinar com pouco. As luzes, uma música melodicamente pobre (parecia um som MIDI, céus, caixinhas de música são as avós dos MIDI´s), o movimento circular. E todas riem muito, acenam para os pais, num êxtase ingênuo, tão bonitinho.
O carrossel pára, papais e mamães recolhem seus filhotinhos, e mais uma leva de crianças ocupa os lugares. Todas sorridentes, claro. Uma delas sorri e acena pra mim, eu sorrio e aceno de volta, porque ela me faz lembrar de um tempo em que eu usava laços no cabelo e me divertia com luzes coloridas e caixinhas de música. Hoje em dia é mais caro e difícil me divertir, mas eu continuo tentando.
Mais uma vez a viagem sem ponto de chegada do carrossel recomeça, e eu sigo com os olhos aquela que acenou pra mim. Ela às vezes finge que não percebe que estou ali, às vezes me encara fixamente, como quem quer dizer algo, e eu começo a ficar incomodada com aquele joguinho.
Quando ela chega no ponto mais próximo a mim, é que eu percebo: eu ainda uso laços no cabelo, e posso me divertir com caixinhas de música e luzinhas. Marquei um encontro comigo mesma e compareci a ele, pra mostrar a mim que o tempo passa, mas eu mudo muito pouco.
Todas as crianças descem de seus lugares, e, sem surpresa alguma, vejo que aquela que acenou pra mim não está mais lá. Sorrio e digo a mim mesma que talvez uma maçã do amor fosse bem-vinda, agora. Dou-me um abraço longo, e digo que não posso passar mais tanto tempo longe de mim.
Quando eu chegar em casa, vou procurar aquela caixinha de música. Será que tem como consertar?


Menina Prodígio se aventurou aqui às 6:40 PM


----------------------

Comments: Postar um comentário

Este é o blog de alguém que tem vinte e um anos, gosta de ler, gosta de que sua vida seja um livro aberto e gosta de gostar. E falta um ano pra receber um canudo.

Todo dia uma aventura nova. Toda semana uma odisséia. De vez em quando uma atualização


Gostos:

*Cheiro de Fanta Morango* *Sabor de hortelã* *Lençol acetinado* *Violão* *Bolero* *Lua cheia* *Teatro* *Bossa Nova* *Clube da Esquina* *Massagem com óleo Johnson's* *Conjectura de Poincaré* *Beijo no pescoço* *Abacaxi geladinho* *Falar sem parar*



Aventuras em grupo


Sotaques, um blog globalizado
O melhor blog da Internet Galáctica

Blogs

Licor de Marula com flocos de milho açucarados
Alma em Punho
Apostos
appothekaryum
\o/Bloggette
Balde de Gelo
Blog de papel
Cala a boca, que eu tô falando!
Catarro
Oh, Bravo Figaro!
Cartas Curtas
O Coyote é Físico teórico! [E tem cara de artista]
Cumequié?
Copy and Paste
Drops da Fal
Não gostou? Vem me pegar!
Mau humor, mentiras e fé patológica
Mad Tea Party
Pensar Enlouquece, pense nisso.
Blog de Gestão
Gravataí Merengue
Caryorker
O biscoito fino e a massa
John Doe - Juventude, sobriedade e poesia
Jesus, me chicoteia!
Louca por blog? É a mãe! A margarida Inventada
Marmota, mais dos mesmos...
Megeras Magérrimas
Não discuto, por Ticcia Antoniette
Nóvoa em folha
Luabella e suas fases
Liberal, Libertário, Libertino
poliCARPE DI EMili
O estupendo Poeta Matemático [Trinomial e o escambau]
Menina Mateira que não posta nunca
Madame Mean

Sites

Cocadaboa
Malvados
Omelete
Embarque


Frase que fez clique

"Brilhar pra sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol."
Wladimir Maiakóvski
Fonte: Anvörg


Arquivos


Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

Powered by Blogger