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19.1.06

Brasília: o avião, a padaria e a banheira (Parte 2)

Bem, eu e o Artista descemos do ônibus, após a placa indicativa de Núcleo Bandeirantes.

Devo dizer que, quando ouvi falar em SETOR DE MOTÉIS, imaginava algo do tipo setenta motéis, todos com placas de neon, um vizinho do outro, como uma grande feira livre, ou aquelas ruas de camelôs, onde os porteiros bateriam palmas para atrair fregueses.

E me vi desorientada: estava na calçada de uma avenida com cinco pistas, e tudo o que tinha na minha frente era uma ruazinha transversal. Com construções que pareciam casas - e nenhuma placa de neon.

Pensamento: "E agora?"

Artista: E agora?
Menin@: Bem...(olhando pra todos os lados, vendo nada mais que uma rua cheia de casas) Podemos ir por aquela rua e...pedir informação.
Artista: (rindo da minha cara) Mas não é você quem morre de vergonha de perguntar sobre esse tipo de "estabelecimento comercial?"
Menin@: Estamos perdidos, numa cidade estranha, e você vai embora amanhã. Não há tempo a perder...
Artista: (Engolindo em seco) É, amanhã eu vou embora.

(Longa pausa cheia de tristeza)

Menin@: Mas isso é só amanhã! Você está aqui, do meu lado...Eu estou segurando sua mão, lembra?

A gente se abraçou, na calçada de uma avenida com cinco pistas. Eu tive aquela mesma sensação que sempre tenho com ele: que eu sou feita de uma mistura de carne e sonho, que aquelas coisas todas acontecendo (ônibus/cobrador/asfalto/avenida/céu azul de Brasília/setor de motéis) faziam pouco ou nenhum sentido, que eu devia estar na minha casa aproveitando o feriado espremido. Que diabos, por que eu me meti nessa história complicada, se eu sei que ele mora em Belém e eu moro em Manaus, e isso não vai mudar nos próximos dois anos? Porque eu não acabo com isso de ficar esperando avião/dinheiro/oportunidade, e desfaço esse relacionamento doloroso e que sobrevive se alimentando de saudade?

A gente ficou abraçado na calçada um bom tempo. E eu pensando que, assim que ele me soltasse daquele abraço, eu ia dizer pra gente largar de ser besta, voltar pra UNB e levar vida de gente normal, trocando e-mails normais, sem declarações de amor, talvez um texto do Veríssimo. Eu cheguei até a abrir a boca com a intenção séria de dizer isso.

Ele soltou o abraço, me olhou nos olhos e disse:

- É, eu vou embora amanhã, mas amanhã ainda não chegou, e eu ESTOU AQUI COM VOCÊ E SOU O FÍSICO MAIS FELIZ DE BRASÍLIA!

Eu fechei a boca. Aquilo tudo eu posso dizer quando ele estiver indo embora de Brasília, não precisa ser agora. Pensando bem, eu posso dizer ano que vem.

Ele me abraçou de novo e me rodopiou no ar. E eu esqueci tudo o que tinha pensado antes; ora pinóia, que perda de tempo, vamos atravessar logo essas cinco pistas e pedir informação!

Ficamos esperando os carros passarem, e nunca parava de passar carro. Foi ele quem lembrou:

Artista: Ei, em Brasília é só por o pé na rua que os carros param!
Menin@: Nós somos dois nortistas, mesmo!

Botamos o pé na rua, e foi incrível: os carros pararam todos, em fila, esperando a gente passar. Comecei a atravessar correndo, mas ele me segurou:

Artista: Deixa de ser índia, menininh@. Eles vão parar.

Desfilamos na frente de uma fila de carros, rindo muito por estarmos estrelando uma cena tão bizarra.

*****

Ao fim da travessia, chegando na ruazinha, eu vi um senhor de seus cinquenta anos lavando um monza verde (inesquecível), uma criança andando de bicicleta pela rua, muitos carros estacionados, casas com jardim na frente. Nenhuma placa de neon. Nenhum aviso de "Entrada" ou "Saída". Nem mesmo uma luz vermelha acesa em cima de alguma casa.

Menin@- Pedimos informação?
Artista - Pro velho ou pra criança?
Menin@ - ahn...Vamos em frente.

Continuamos andando. Eu falando da visita e das fotos que havia tirado no Eixo Monumental, ele dizendo que todos os colegas iam fazer esse city tour na hora do almoço, e...bem...ele não ia estar lá. Eu falando do quanto tinha sido divertida a noite anterior, mesmo com show da Daniela Mercury, e do quão impressionada eu ficara com a capacidade dela de dançar e cantar ao mesmo tempo - coisa que eu sei ser muito difícil. Ele falando da bagunça que a delegação do Pará fizera durante a viagem de ônibus, passando por Maranhão, Tocantins, Goiás, batendo foto de qualquer coisa, até de nuvens com formato de cupuaçu (só vendo um cupuaçu pra entender a graça da piada). Falou também sobre como estava ansioso para conhecer Manaus, e para fazer a primeira viagem de avião da vida dele.

Escutei um barulho, e olhei pra cima. Era um avião. Riscando o céu azul-paraíso de Brasília, os reflexos do sol quente da manhã batendo na fuselagem. Parecia feito de espelhinhos. Tive um ataque de infância:

Menin@ - Um "vião"! Óla só, o vião vuando lá no chéu de Basília!

Levantei os braços, tentando dar tchau pro piloto do avião. Ele riu um riso triste:

Artista: É num desses que você vai voltar pra casa...
Menin@: Mas você também vai andar de avi...NOSSA!
Artista: NOSSA!

Levamos um tranco, os dois. O avião passou embaixo do sol, acima de nós, e a sombra imensa nos cobriu, como um soco indolor, o melhor susto que já levei. A sombra do avião passou abençoando a nós dois, e eu não precisava de mais nada para ser absolutamente feliz.

Artista: ÉGUA! ÉGUA! ÉGUAAAAAAAAAA!
Menin@: Que FANTÁSTICO! Olha já como é que tô!
Artista: Eu também!
Menin@: ...e foi bem assim, PÁ!
Artista: EU TE AMO!
Menin@: Eu te amo mais!

A gente endoidou e começou a pular rodopiando no meio da rua do Núcleo Bandeirantes. Começamos a rir como duas pessoas que estivessem intoxicadas por oxigênio puro, e ríamos rodando, abraçados, na certeza de que, se tínhamos sido abençoados por um avião, a nossa história de amor podia ser feliz e cheia de aviões voando entre Belém e Manaus. Nos beijamos, e eu estava tão feliz que se alguém me pedisse pra explicar naquela hora, eu iria chorar até inundar Brasília, de tanta comoção.
Como não precisei explicar nada pra ninguém, continuei andando em frente, encostada no ombro do meu amor, de vez em quando apertando a mão dele só pra ter certeza de que ele era real mesmo, que não ia desvanecer-se no ar quando eu fechasse os olhos.
Eu apertava a mão dele, e ele beijava o meu cabelo. Não era como um sonho, era igualzinho à realidade, era a nossa realidade, deliciosa realidade.

**********

Então, já sabem, né?

continua....

***********
Escrevendo agora, eu vi que naqueles dez segundos, eu aprendi a ser feliz sem barreiras, sem censurar as atitudes, sem tentar reprimir o que eu sou.

Eu estou muito abalada pra continuar escrevendo hoje. Perdoem-me, perdoem-me. Amanhã eu volto e conto sobre a padaria e a banheira...Botar tudo por escrito me deixou muito emocionada, estou trêmula e chorando muito, eu preciso ligar agora pro Artista e ouvir a voz dele.


P.S.: Além do mais, hoje, 19 de janeiro, faz um ano e seis meses que eu o conheci, em Cuiabá.
P.P.S.: Parabéns pra nós dois.
P.P.P.S.: Parabéns aos que tem coragem de vencer fronteiras e fazem valer os sentimentos!


Menina Prodígio se aventurou aqui às 2:33 PM


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Fonte: Anvörg


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