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2.4.06

Brasília - o avião, a padaria e a banheira - Parte última

Entramos no quarto.

A primeira coisa que eu vi foi uma saleta. Com mesa e cadeiras (QUATRO CADEIRAS, coisa rara em hotel). Um sofá cinza de dois lugares.

Eu - Mas olha, que bacana, tem sala de estar!

Entramos no quarto em si, e que surpresa boa! Poderia ser o quarto da casa de qualquer um: um armário no canto, uma cama normal, com cabeceira e tudo. E, ao mesmo tempo, era um ambiente irreal, com cortinas vermelhas filtrando a luz do sol e uma parede inteira recoberta por espelhos. [Gooooood idea!]

Me senti aconchegada. Coloquei o saco de papel com as fatias de bolo de cenoura no criado-mudo, andei até a janela pra ver lá fora.Céu azul. Liguei o ar-condicionado e fechei as cortinas, e o quarto ficou todo iluminado de vermelho.

Estava encantada por ter achado um lugar tão bom (estava preparada pra um pulgueiro), e escutei a voz dele, empolgadíssimo:

- Não acredito! Não acredito!
- Quê?
- TEMOS BANHEIRA!
- Nãão...

Fui ver com meus próprios olhos. E quase caio pra trás: o lugar era espaçoso, claro, bonito e realmente TINHA UMA BANHEIRA.

- Menino, que lugar é esse?!
- Até onde eu sei, Brasília.
- Artista, a gente tá em Brasília! - eu sentei na cama e sacudi a cabeça, querendo ver se o sonho ia se desfazer.- Tem noção disso? A gente passou por uma crise, quase desistiu um do outro, decidimos continuar tentando, e estamos aqui. No Reveillon, a gente estava se revendo e averiguando se gostava mesmo um do outro; e agora, nós sabemos que gostamos, e estamos lutando contra a solidão e a saudade...E eu estou me sentindo tão absurdamente feliz que simplesmente nao sei o que dizer.
- Quieta, então...

******

Quietinha, ele mandou.

Quem disse que eu sou obediente?

******

- Ai...
- Que foi?
- Acho que machuquei o pulso...
- Querida, se você esmurrasse menos a parede, não estaria doendo.
- ...
- ?
- Acho que dá pra esmurrar com o outro lado.

******

Inesquecível: ver um homem abrindo devagar um sorriso - e saber que é por sua causa.

******

- huuuuuuuuuuuuuuuuuuuuum...fiquei cansada.
- Não, não, não levanta não, fica aqui comigo.
- Menino, que é isso? Quantos braços você tem, homem-polvo?
- Não sou homem-polvo.
- É sim, o polvo é que envolve a pobre vítima com os braços e e a puxa para perto de si.
- Admite que você gosta das minhas polvices.
- Adoro. Pode ter quantos braços quiser, homem polvo. E continua me puxando pra pertinho.
- ♪♫ Homem- Polvo, Homem-Polvo!
NHÁ NHÁ NHÁ NHÁ NHÁ, NHÁ-NHÁ!♫♪
- Hahahahahahahahahha!
- Viu? Já tem até tema de abertura.
- É um talento. Deixa a Disney te descobrir.
- hehehe.
- Melhor, me deixa te descobrir.
- Pode ser agora?
- Deve...

************

- Positivamente, eu sou o homem mais feliz de Brasília. De Belém. De Manaus. Do mundo. Eu sou o homem mais feliz do mundo!
- Nós somos o paradoxo da Geografia. Saí de Manaus, você de Belém, nos conhecemos em Cuiabá, estamos nos revendo em Brasília.
- Sabe aquele e-mail que te mandei sobre os ônibus espaciais?
- O que tem?
- É de lá que nós somos. Nós não estamos em Brasília, estamos a 300 km do chão.
- Eu sou a mulher mais feliz da estratosfera!
- Vem aqui comigo então, mulher feliz.
- Ô, Homem-Polvo...

*************

- Artista, que legal!
- O quê?
- Nós somos dois escandalosos.
- Menininha, eu só sou escandaloso quando foi MUITO BOM.
- E foi?
- O quê?! Quer que eu dê outro escândalo?
- ...bem...
- Tá, já entendi...

*************

- Pega ali aquele saco de papel?
- Por quê? O que tem nele?
- O bolo de cenoura que eu comprei...

[Ele pega uma fatia e me oferece]

- Delícia, né? Adorei a casquinha de chocolate.
- Muito gostoso, e muito barato. Morde aqui.
- Xabe que eu nãof tô fentindo falta de almofar?
- Nhem eu. [rindo] Afo que só confeguimos fentir um tipo de fome de cada vez. Pega mais um pouco...

[eu achei que era pra terminar com a fatia. Ele protestou.]

- EEEEEEEEEIIIIIII, que é isso? Não é pra levar o meu dedo junto!
- ? ?? ??? Não era pra pegar tudo?
- NÃO, fominha. Credo, um, dois, três, quatro, cinco...Ufa, fiquei com medo de você, menina-canibal.
- Eu nem mordi...
- Não? Parecia o TUBARÃO - tam-dam, tã-dam, tã-dam.... A mulher tubarão está me atacando!
- E o que você vai fazer com relação a isso?
- VOU DEVOLVÊ-LA PRA ÁGUA!
- Ecossistema aquático tem polvo e tubarão?
- TEM!
***********

- Que horas chegamos aqui?
- Acho que às onze.
- Tá acontecendo algum milagre. Ainda são meio-dia e meia.
- Milagre maior é uma mulher emitir luz própria.
- Ah...É o sol que reflete em mim, porque eu sou muito branca.
- Deixa eu viver sob a sua luz?

*************

O sol do início da tarde batia em cheio sobre a água, e nós olhávamos as ondinhas refetidas no teto.

- Artista?
- Diz.
- Você já sentiu isso?
- O quê?
- Viver um momento MUITO feliz, talvez o melhor da sua vida, e ter plena consciência de que está vivendo um dos momentos mais felizes e especiais da sua vida? Estou sentindo isso agora.
- Eu estou sentindo o seu abraço iluminado pelo sol de Brasília. E nada que eu tenha vivido até aqui me fez sentir essa felicidade absoluta, completa, que eu estou sentindo. Nenhuma coisa linda que eu tenha visto pode ser mais linda que a sua pele refletindo a luz do sol e iluminando as paredes. Você parece uma visão, uma náiade, um pedaço de luar. E eu não consigo imaginar outro lugar pra estar que não o seu abraço, feito de luz, amor e água.
- Nunca fui tão feliz. Nunca tive tanta consciência disso.

******

- Olha o nosso abraço no espelho.
- Bonito, né?
- Quem, eu?
- Também. Mas eu tava falando do abraço.
- O abraço é bonito por sua causa.
- Que nada, eu me olhei no espelho enquanto você tomava banho.
- E o que viu?
- Uma moça que só fica bonita quando te abraça assim, pertinho...

*******

- Te amo.
- Te amo.

*******

*triiim, triiiiiiiiim*

- Alô? Já são uma e meia da tarde? A gente pediu pra você avisar, né...Obrigado, amigo.
- Vamos voltar pra UNB, Menino-Físico?
- ....Vamos voltar pra Brasília, porque neste tempo todo eu sei que a gente esteve em algum lugar muito longe.
- Importante é que estivemos juntos.
- E vamos ficar assim pra sempre?
- ...
- Tá, eu não devia falar nisso agora.

*********

Vestidos, abrimos as cortinas vermelhas. Brasília estava lá fora, o céu de um tom azul-brasília. Ele se apoiou na sacada. Eu bati uma foto dele, assim: o céu de Brasília, a sacada, a expressão mais misturada de alegria e melancolia que eu já vi. E o meu coração gritou de desespero, de vontade de ficar dentro daquele quarto até que o mundo acabasse, de fechar novamente as cortinas e nunca mais voltar pra Brasília, Manaus, Belém ou qualquer outro lugar em que as pessoas que se amam tivessem de desfazer um abraço.

Mas, embora meu coração gritasse, eu sorria. Pois eu sabia que ainda viriam muitas viagens de avião, muitos telefonemas, e eu adivinhei as bananas fritas, as ladeiras, os beijos de madrugada na sala da minha casa em Manaus, adivinhei o jardim e os pares de olhinhos castanhos, os livros lidos a duas vozes, as músicas que contariam a nossa história, adivinhei os risos e mais lágrimas, e entendi que quem não assume a própria vida sobre o solo não merece viver um amor de estratosfera.

Sorri, peguei na mão dele, desliguei o ar-condicionado e tranquei a porta.

Iniciamos o caminho para a UNB. Deveríamos estar lá às 14h. Olhei no relógio dele: 14:05.

**************

Continua...

Viram só? Acabou a parte do avião, padaria e banheira. Agora vem a parte das dores musculares, a Coca-Cola de três litros e a câmera de vigilância!


Menina Prodígio se aventurou aqui às 10:52 PM


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Fonte: Anvörg


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