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21.7.06

Quero ser o Brilho Eterno de uma Mente que sonha com Che Guevara

*Nota: post altamente confessional*

Eu sou filha única. Quero dizer, tenho meio-irmãos. Mas cresci sozinha, e sou filha única na prática.

Eu era gorda. (Ainda sou.Hum, tá, fofonha. HUm, pessoa com sobrepeso. Hum, mulher normal que pensa que é gorda.) Quando criança, eu era "a gordinha". Aquela, que toda sala de aula tem, sabe? Era eu mesma. A Laura de Carrossel.

E eu tinha asma. Não tinha pique pra correr na rua.

Ou seja: minha infância foi dentro de casa. Ouvindo música na rede, e lendo os livros do Monteiro Lobato. Zilhões de vezes. Os dezesseis livros do Sítio do Picapau Amarelo, que meu anjo da guarda inspirou minha mãe a me dar de presente de Natal. E os livros "paradidáticos" da escola. E os livros de Português. E os de história. E os de geografia. Quando a secura por livro ficava violenta, até os de matemática. E histórias em quadrinhos da Mônica. Eu tinha mais de quatrocentas revistinhas da mônica. E de cada uma, eu sabia quatro coisas: a capa, o número, os títulos de todas as histórias e a tirinha do final. Sabia MESMO.

Algumas eu sabia de cor, de tanto ler e reler e treler.

"Ora, Menina, e por que reler a mesma história tantas vezes?"

Porque eu não apenas lia. Eu criava o meu próprio roteiro paralelo. E nesse roteiro paralelo, eu estava lá. No mesmo cenário. Às vezes, eu roubava o lugar da personagem mais legal. Às vezes, eu fazia um universo expandido onde eu existia. (E claro que era a mais legal, a mais querida, a necessária, a sensata, a que tinha as melhores idéias e da qual ninguém discordava. Emília, Emília, Emília.)

"Certo, toda criança faz isso, você não era autista nem esquizofrênica, Menina."

Tudo bem, toda criança faz isso. Eu CONTINUO assim. É impossível pra mim escutar um disco sem fazer o show, com direito a coreografia e fãs subindo no palco. É doloroso ver um filme no cinema e não poder me levantar pra sair caminhando e falando sozinha o texto que se desenrola na minha cabeça. É impossível ler um livro e permanecer isenta.

Detalhe: minha produções são completas, eu imagino as entrevistas que vão entrar nos extras do DVD e os erros de gravação, e as conversas de bastidores e a reação do público sentado no cinema.

E, claro, recito na frente do espelho o meu discurso de agradecimento no Oscar/Grammy/Prêmio Multishow/coisa que os valha. Meu vestido do Oscar é lindo, aliás.

Inclusive, meu indicador pessoal do quanto a pessoa é importante pra mim é quantas vezes ela contracena comigo na minha tela mental. Se eu gosto de alguém, essa pessoa vai interpretar muitos papéis.

E, enquanto estou criando, eu fico zanzando pela casa, fazendo expressões faciais, falando minhas falas, gesticulando, ou chorando, em cenas dramáticas. Sou uma atriz.

É impossível não morrer de vergonha quando a sua mãe vai beber água na cozinha e te escuta falando com ninguém sobre coisas importantes.

Compreendida essa primeira parte, sigamos adiante.

**********

Atenção: a partir daqui os spoilers abundam. Se você não gosta de saber finais, meios ou inícios de filmes, não leia.

Michel Gondry me fez chorar quando vi "Quero ser John Malkovich". Numa cena, um Manipulador de Marionetes (qual o nome dele?) fabrica uma boneca com a cara da moça que não deu bola pra ele(a Maxine), e cria um ato no qual a situação se inverte. E ela(boneca) se apaixona quando ele(boneco) fala tudo o que não conseguiu falar na vida real. Eu chorei por que, droga, eu FAÇO isso. Sem usar bonecos.

Michel Gondry me fez chorar de novo em "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", um dos melhores filmes da minha vida. Uma das cenas que me causaram soluços é quando o casal principal, Joel (Jim Carrey, na melhor atuação da sua vida) e Clementine (Kate Winslet)estão conversando debaixo do lençol. Quem viu o filme sabe, quem não viu, pare de ler este texto e vá assistir agora mesmo. Clementine diz que quando pequena, dava broncas nas suas bonecas: "Seja bonita! Por que você não é bonita?"

Céus, se tivessem me espionado com uma câmera não ficaria tão parecido comigo.

*************

E agora, veio essa notícia de que o próximo filme do Michel Gondry é sobre sonhos, sonhos que invadem a vida real, sonhos que se têm acordado e pessoas de imaginação fértil.

E, pra completar, o sonhador é o Gael García Che Guevara Bernal.

Michel Gondry vai me fazer chorar de novo. E eu vou adorar.


Menina Prodígio se aventurou aqui às 2:48 PM


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Este é o blog de alguém que tem vinte e um anos, gosta de ler, gosta de que sua vida seja um livro aberto e gosta de gostar. E falta um ano pra receber um canudo.

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